Eu já era grandinho quando conheci essa maravilha chamada elevador. Que delícia não precisar subir e descer escadarias, alternando a perda de fôlego com o receio de sair rolando. De fato, foi uma das grandes invenções da humanidade, principalmente para idosos e deficientes, mas também para os preguiçosos. Ao lado da facilidade dos deslocamentos verticais, o que me chamava a atenção era uma placa que havia na parte de dentro, contendo um pedido/alerta: Sorria! Você está sendo filmado.

Com o tempo, esse tipo de aviso foi se tornando mais comum. Primeiro, as câmeras de segurança chegaram às lojas chiques, depois ganharam as ruas e hoje estão por toda a parte. É quase impossível sair de casa e chegar a qualquer destino sem que o olho eletrônico nos flagre uma, duas ou várias vezes. A vigilância ganhou novo impulso com a popularização dos celulares. A maioria dos aparelhos possui sistemas operacionais que permitem saber exatamente onde estão quando ligados.

Não bastasse todo esse aparato, ainda somos acompanhados, passo a passo, lá de cima. E não estou falando do “todo-poderoso”, mas dos satélites e das tecnologias ligadas a eles, como Google Earth. A gente pode até andar pelado no pátio de casa, mas existe um bom risco de as imagens, um dia, estarem nas redes porque um robozinho plantado na atmosfera registrou tudo quando estava “olhando” para o nosso quintal. O termo privacidade, que define aquilo que não deve ser de domínio público, em breve, será inapelavelmente abolido dos dicionários. E não vai demorar muito.

Você já se perguntou quem tem acesso à sua lista de busca no Google? Na escola, a professora pede um trabalho sobre drogas e o adolescente coloca na barra a palavra “maconha”. O menu de endereços vai de artigos acadêmicos a receitas de plantio doméstico, entre “otras cositas”. Um tiquinho só de curiosidade e, pronto: o guri se tornou maconheiro para algum desavisado que tiver acesso à sua “refeição informativa”. Sabe aquela Playboy antiga da Débora Secco que você só procurou para ler de novo a entrevista com a Ivete Sangalo? Ferrou!

Por mais que existam políticas de privacidade, os vazamentos de documentos secretos – até mesmo do governo americano – sugerem que nada é 100% seguro. Num passado não muito distante, tinha-se o receio de que estas informações poderiam ser usadas contra nós por governos autoritários. George Orwell fez esse alerta com o livro 1984, descrevendo uma sociedade vigiada pelo Grande Irmão, o Big Brother, que a tudo vê e tudo sabe. Embora esse receio seja legítimo, é provável que os grandes usuários hoje sejam imensas corporações. A partir do conhecimento que têm sobre nós, manipulam hábitos de consumo e inoculam ideias em nossa mente para manter o seu poder, muito maior que o dos governos.

Não me considero uma pessoa paranóica, mas, por via das dúvidas, não custa tomar alguns cuidados. Tudo que é dito, feito e escrito pode, um dia, ser usado contra nós. Então, para ter noites de sono tranquilo, é preciso conduzir bem as nossas condutas, começando pelo respeito às leis e pelas outras pessoas. Ninguém é totalmente bom ou ruim, mas é evidente que as falhas aparecem muito mais. Se for obrigado a fazer algo que um dia pode ser mal interpretado ou se simplesmente quiser se divertir – de forma sadia – sem que alguém veja, deixe o celular em casa e invista num belo disfarce. Deus tá vendo, não se engane, mas os mexeriqueiros talvez dê pra driblar.

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