Você já reparou que toda vez que nos deparamos com um acidente, no trânsito, rapidamente se formam enormes filas porque os condutores reduzem a velocidade para ver o que aconteceu? E que outros simplesmente estacionam ao longo da rua e voltam para acompanhar o trabalho da Polícia e dos socorristas? Inclusive, muitos sacam os telefones celulares e fotografam ou filmam tudo. Estas imagens e vídeos são depois compartilhados nas redes sociais e viralizam rapidamente.
A situação é semelhante quando ocorre um assassinato. Esta semana, no bairro Santo Antônio, em circunstâncias que ainda estão sendo apuradas, foram encontrados os corpos de um casal dentro de uma residência. O homem e a mulher tinham ferimentos de bala e, segundo as autoridades, tudo indica que ele a matou e depois cometeu suicídio. Rapidamente, as calçadas foram ocupadas por curiosos, ávidos por informações e por um registro da cena do crime. Cada vez que a porta era aberta, os braços se erguiam e os celulares eram apontados em direção à casa.
O apetite pela tragédia e a sede de sangue não são fenômenos novos. A diferença é que a tecnologia popularizou e barateou os meios. Quase todos têm celulares com câmeras e estão habilitados a registrar os infortúnios dos outros. O problema é que isso costuma ser feito sem critérios, sem a cautela de um jornalista, que procura não invadir a privacidade e expor as vítimas de forma irresponsável e até cruel.
Na Psicologia, existem inúmeros estudos que explicam esse comportamento, batizado de “schadenfreude”. A palavra tem origem alemã. “Schaden” significa dano e, “freude”, alegria. Juntas, passam uma ideia semelhante a um ditado popular bem brasileiro: “pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Segundo especialistas que estudam o tema, esse sentimento costuma surgir por diferentes motivos, como o fato de o infortúnio alheio parecer merecido ou quando aquele que experimenta a sensação é beneficiado pela má sorte do outro.
Existem ainda outras razões, como a inveja e a rivalidade. Nestes casos, o observador não tem nenhum benefício tangível e a desgraça não representa um justiçamento, mas um simples bem-estar.
Mas e quando se trata de alguém que não conhecemos, com quem sequer cruzamos algum dia? Para alguns profissionais, é uma forma de autoafirmação. É como se, ao testemunhar e mostrar as dificuldades do outro, as pessoas estivessem convencendo a si próprias de que sua vida é melhor. Este parece ser, enfim, o melhor diagnóstico para uma doença social que cresce a cada dia.
A curiosidade é inerente ao ser humano e satisfazê-la pode ser uma necessidade até compreensível. Já a coleta e a distribuição de imagens de corpos está sujeita a dispositivos legais que a maioria ignora. Talvez, antes de agir desta forma, devêssemos nos perguntar qual seria a nossa reação se a vítima fosse alguém da nossa família, como a esposa, a mãe ou um filho. Conheço gente que não se comove com a dor do outro, mas reagiria de forma violenta se fosse com os seus. Tudo tem limites e o melhor de todos é o bom senso.

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