Numa roda de conversa, entre um gole de cerveja e outro, três amigos divagam sobre as injustiças que estão sofrendo. Chorosos, lamentam a má sorte, o destino cruel, a falta de compreensão da sociedade e masturbam seu coitadismo com sofreguidão.
Diz o primeiro:
– Semana passada, fui na pizzaria para tomar um chopp e, na saída, meu carro estava sendo multado só porque estacionei na faixa amarela. Um absurdo!
– Pior foi comigo – apressa-se outro. Acredita que levaram meu filho para a delegacia só porque ele tava fumando um cigarro de maconha na pracinha do Centro e tinha umas crianças por perto?
– Calma, amigos, isso não é nada – emenda o terceiro. Minha ex-mulher tá ameaçando me colocar na cadeia. Tô sem dinheiro e agora fechou três meses que não consigo pagar a pensão do meu filho. A vadia bem que podia esperar!
Obviamente esse diálogo é fictício, mas não seria estranho se tivesse ocorrido de verdade. Afinal, nunca antes na história, as pessoas gostaram tanto de se fazer de vítimas e ignorar que, em sociedade, todos têm direitos e deveres. As leis foram criadas pelas civilizações há milênios para nivelar os cidadãos e servirem como códigos comportamentais. Estabelecem limites para as ações de cada um, de forma que não prejudiquem terceiros.
O problema é que evoluímos de um lado e retrocedemos de outro. O ser humano cria maravilhas, a tal ponto de já possuir soluções definitivas para a maioria dos problemas. Só não as aplica porque muita gente deixaria de ganhar com a venda de paliativos. Na contramão, parece cada vez mais difícil assumir responsabilidades e responder pelos próprios atos.
Estacionar em local proibido, consumir drogas em espaços públicos, perto de crianças, e sonegar a pensão alimentícia para os filhos não são apenas comportamentos incompatíveis com a vida em sociedade. São demonstrações de egoísmo. É muita gente apertando a tecla de “f…-se”. E quando as autoridades cumprem seu papel e enquadram os infratores, o que se vê é “choradeira”, como se cumprir a lei fosse uma tortura.
Dizem que o psicanalista Sigmund Freud costumava fazer uma pergunta direta aos seus pacientes no primeiro encontro: qual a sua responsabilidade na desordem da qual se queixa? Antes de reclamar da multa, é preciso analisar o que nos leva a estacionar na faixa amarela. Era mesmo preciso? Por que será que nosso filho usa maconha? O que nos levou a ficar sem dinheiro e não poder depositar a pensão? As respostas talvez sejam dolorosas, mas transferir a culpa pelos nossos problemas a terceiros só vai aprofundá-los e levar à exclusão dos grupos que amamos.
Assumir a responsabilidade por nossos atos, com coragem e disposição, coloca-nos a favor da vida e, acreditem, ela acaba nos apoiando. Então, talvez o remédio para a maioria dos males esteja simplesmente em… parar de reclamar. E, principalmente, em admitir que o bem e o mal que nos atingem, na esmagadora maioria das vezes, são fruto das nossas próprias escolhas.

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