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No supermercado, enquanto esperam na fila pelo atendimento, duas senhoras, ambas de uns quarenta e poucos anos, conversam sobre a vacinação contra a Covid-19. Curioso por natureza, “estiquei a orelha” para ouvir o papo, já que não havia nada mais interessante a fazer enquanto esperávamos um casal terminar de passar a compra do mês pelo caixa. Para facilitar a compreensão, vou chamá-las de Ana e de Maria, obviamente nomes fictícios, pois eu não as conheço. O diálogo foi mais ou menos esse:

Ana: Tu viu que começaram a vacinar os idosos com mais de 85 anos?
Maria: Vi, sim, e fiquei muito feliz, porque agora falta pouco para chegar a vez do meu pai, que tem 83.

Ana: Pois eu achei um absurdo. Por que não dão as primeiras vacinas para quem ainda trabalha, que pode produzir. Os idosos a gente pode meio que prender em casa, mas o resto de nós tem que sair para trabalhar.

Maria: Eu entendo que algumas pessoas pensem desse jeito, mas não podemos esquecer que os idosos já trabalharam muito por nós e estão presos, sem abraçar os filhos e netos, desde março do ano passado. Muitos até entraram em depressão e estão doentes.

Ana: Acho que, olhando por esse lado, tu tem uma certa razão. O jeito é rezar. Só Jesus na causa!
Maria: Verdade, eu rezo mesmo, mas também tomo cuidado, lavo sempre as mãos, procuro não fazer ajuntamentos e usar a máscara. Por falar nisso, tu não usa?

Nessa hora, a divina providência socorreu Ana. A conversa foi interrompida porque chegou sua vez de passar as compras pelo caixa. Enquanto alcançava um rolo de papel higiênico para a atendente, vi seu tímido sorriso amarelo, misto de constrangimento com indignação por ter sido “desmascarada” – com o perdão do trocadilho. Daquele momento em diante, a desconhecida Maria ganhou meu coração porque ela fez o que qualquer pessoa consciente deve fazer num momento desses: desarmar os ignorantes e confrontá-los com sua própria estupidez.

Todos querem a vacina, mas muitos não fazem nada para merecê-la. Em todos os grupos – atendentes de farmácia e de supermercados, caminhoneiros, professores e policiais, para citar apenas alguns – há gente que não dá a mínima para a prevenção. E não falo só do “descuido” em relação ao uso da máscara, mas da decisão consciente de ir a bailes e festas com grandes aglomerações. Infelizmente, o comportamento inadequado não deixa uma marca na testa que possa ser reconhecida e permita identificar esse grupo e mandá-lo para o fim da fila.

Então, o jeito é seguir a lei e as regras definidas pelo Ministério da Saúde e, principalmente, entender que a definição de quem será protegido primeiro não nasceu de uma simples vontade ou do lobby de um grupo ou de outro. Profissionais da saúde e idosos estão na ponta porque a maior quantidade de mortos é desses grupos. Será muito mais produtivo se toda esta energia que gastamos numa guerra fraticida pelas doses for canalizada em pressão sobre os governos para que aumentem a oferta de vacinas. Não sou completamente refratário a modificações na ordem de imunizações, mas antecipar a imunização de um grupo não pode ser a sentença de morte para outro.

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