A tradicional família brasileira sempre viu as puladas de cerca dos homens como um pecado de menor importância. Já quando são elas que dão uma escapada, os cônjuges costumam reagir com violência. Num passado não muito distante, eram inocentados pelos tribunais machistas se “lavassem a honra” com sangue. Por séculos, os cabarés foram não só um ambiente de diversão para os varões, mas também o espaço onde podiam extravasar suas taras com mulheres pagas. Às esposas, que permaneciam em casa cuidando da prole, em geral numerosa, restava torcer para que as casas de tolerância pegassem fogo e as chamas consumissem não só seus maridos infiéis, mas também aquelas que, em troca de algumas cédulas, “despudoradamente” atendiam a seus instintos mais primitivos.
Possivelmente foi dessa forma que nasceu a expressão “Pega fogo, cabaré”. Embora antiga, as redes sociais trataram de restaurá-la como um desabafo, não mais contra o adultério e a prostituição, mas como crítica à situação política do país. Desde o dia 1º de janeiro, com a posse de Jair Bolsonaro, todo e qualquer ato do presidente passou a ser alvo de uma patrulha semelhante à sofrida pelos petistas durante os governos Lula e Dilma. Especialmente após o Mensalão e na esteira da Operação Lava-Jato.
Como reação, nos 14 anos em que o Partido dos Trabalhadores esteve no Planalto, o país foi inteligentemente apartado entre ricos e pobres, negros e brancos, exploradores e explorados, na melhor técnica “dividir para governar”. A reação a esse movimento cresceu nas redes sociais, através de memes engraçadinhos, criados às pampas para ridicularizar os agentes do poder, Dilma principalmente. E ela dava uma mãozinha com seu estilo atrapalhado, claro. Todo dia alguém riscava o fósforo na expectativa de incendiar o “cabaré”.
Por que seria diferente com Bolsonaro, se ele próprio e seu staff estavam por trás de muitos daqueles ataques? A “Direita” brasileira subiu a rampa porque o modelo petista se esgotou e porque a corrupção assumiu uma condição endêmica. E, como era de se esperar, tem muita gente trabalhando para que o cabaré vire cinzas.
No meio de tudo, está a população e, acreditem, a maioria não quer saber de nada disso. O brasileiro médio deseja apenas trabalho e salário, escola, saúde e segurança. E, para usufruir esses direitos, paga muitos impostos. Quando os políticos tentam incendiar a nação, esquecem que muita gente vai arder junto com eles. Chamem os bombeiros!

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