Fornecedora – Eu fiquei de dar uma ligadinha pro senhor sobre a carne moída.
Cliente – Ah, sim, sim.
Fornecedora – Aquela dos bois morto.
Cliente – Sim, dos bicho morto. Exato. Não, nem falei com a patroa, mas se quiser trazer um pouco ali, traz.

Este diálogo faz parte de um conjunto de provas que levou a Polícia a desmantelar, no começo desta semana, uma quadrilha que comercializava alimentos impróprios para o consumo. Durante a operação da Delegacia de Combate ao Abigeato e Crimes Rurais, foram interditados três frigoríficos nas cidades de Parobé e Taquara, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Quinze mandados de busca e apreensão foram cumpridos. Entre os alvos, estavam mercados e estabelecimentos comerciais que compravam a carne e a revendiam depois aos seus clientes.
A partir dos relatos de testemunhas e de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, a Polícia descobriu um negócio… nojento. Bovinos doentes e até mesmo mortos eram “carneados” pelas empresas como se fossem animais saudáveis. Quando a carne estava muito deteriorada, era misturada a outras substâncias para disfarçar o cheiro e a cor. Depois, os frigoríficos moíam o produto, que acabava virando guisado e recheio para pastéis e outros artigos comercializados em restaurantes e padarias. Os donos destes estabelecimentos evidentemente sabiam o que estavam comprando, sem nota fiscal, selo de inspeção sanitária e preço muito abaixo do normal.
De acordo com profissionais da área da saúde, assim como a carne é rica em proteínas e excelente alimento para os seres humanos, também as bactérias, os vírus e os protozoários têm nela seu prato favorito. Imediatamente a partir do abate, começa o processo de apodrecimento. Carne beneficiada horas após a morte do animal pode causar desde infecções intestinais até problemas cerebrais irreversíveis. Nos casos mais graves, há risco de morte.
Infelizmente, não é a primeira vez que nos deparamos com situações assim. Em 2017 e 2018, diversas fraudes e contaminações foram descobertas no leite e em seus derivados no Rio Grande do Sul. Até cal virgem e formol eram adicionados ao produto por indústrias e cooperativas de várias regiões para reverter a deterioração, colocando em perigo a vida de milhares de pessoas, com risco potencialmente maior para as crianças.
Comercializar a carne de um animal doente ou que já estava morto antes mesmo de chegar ao frigorífico não é apenas um crime, mas uma demonstração de ganância e de desapego à vida que nivela homens e mulheres a monstros. E dizer que “não dá nada” ou que “o que não mata, engorda” é o mesmo que puxar o gatilho de um revólver esperando que a bala seja desviada de seu alvo pelo vento. Permitir que bebês tomem leite contaminado deveria ser considerado crime hediondo, punido com as mais duras penas possíveis.
A busca pelo dinheiro, o egoísmo, o desejo de enriquecer, nem que isso custe a vida dos outros, sempre existiu, é verdade. Mas deveríamos estar evoluindo como espécie a tal ponto de já termos abolido certas práticas. Infelizmente, é difícil manter a fé na humanidade quando inocentes são levados a tomar leite com formol e a comer pastel recheado de carne podre.

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