Eu confesso: não sou um apaixonado pelos filmes da Disney e quando a primeira versão de Rei Leão estreou, em 1994, demorei a assisti-la. Na época, Montenegro não tinha cinema e, nas locadoras, as fitas VHS com a animação eram disputadas a tapa. Na verdade, só fui ver as aventuras de Simba, Nala, Timão e Pumba bem mais tarde, quando passaram na TV. De cara, gostei da história, não apenas pelas músicas e pelas tiradas engraçadas dos personagens, mas por causa das mensagens subliminares que a película entrega do começo ao fim. Agora, quando estreou a “live-action”, fui menos negligente e tratei de vê-la rapidamente. Um grande filme, tão emocionante quanto o desenho animado.
Se alguém ainda não viu e pretende fazê-lo, sugiro que interrompa a leitura aqui, porque virão alguns spoilers. A história começa com o nascimento do pequeno Simba, filho e herdeiro do orgulhoso Mufasa, o grande rei leão. O jovem felino, movido pela curiosidade, faz descobertas e se coloca em perigo, mas o olhar atento do pai consegue salvá-lo. Contudo, o rei tem um irmão: o dissimulado Scar, que, sedento de poder, arma uma emboscada para pai e filho. Mufasa morre e Simba, imaginando ser o causador da tragédia, foge, abrindo caminho para a ascensão do tio. Somente muitos anos depois, a verdade vem à tona, o príncipe volta e reencontra sua terra devastada. Scar reina pelo medo, escoltado por um grupo de sangrentas hienas. O filme termina com o bem vencendo o mal, Simba recuperando o trono e apresentando seu herdeiro, num épico fechamento do círculo da vida.
O enredo não é novo. Aliás, é uma simples cópia de vários outros filmes e histórias contadas em livros desde a Antiguidade. Contudo, “Rei Leão” tem o condão de fazer pensar, às vezes, sem ao menos nos darmos conta. E apresenta uma pergunta que, a mim, vem inquietando há um bom tempo: afinal, para quê as pessoas querem o poder? A história está cheia de líderes que o tomaram a força, como Scar, e destruíram tudo que encontraram apenas para impor sua vontade e a forma como vêem o mundo.
Durante o filme, os melhores amigos de Simba, o suricato Timão e o javali Pumba, ensinam ao jovem leão a expressão “hakuna matata”. Do idioma suaíle, uma língua falada na África oriental, significa “sem problemas” ou “não se preocupe”. É um convite a lavar as mãos, diante da certeza de que não temos a solução dos grandes problemas e, portanto, não adianta esquentar a cabeça. Mais ou menos como um “f…-se”, na velha e chula gíria brasileira.
A verdade é que todos os lugares estão cheios de “Scar” em busca de poder para uso em proveito próprio. A sociedade cria seus monstros e depois tem dificuldades de se livrar deles porque o cidadão está embriagado pelo egoísmo, pela falta de espírito público, pelo “hakuna matata”. Estamos abrindo mão dos nossos direitos e negligenciando os deveres porque achamos que nossas ações não têm força para mudar a realidade. Têm, sim!
Então, na hora de escolher aqueles a quem vamos confiar nosso voto, precisamos, primeiro, perguntar: para quê você deseja chegar ao poder? É preciso prestar muita atenção, porque a maioria vai desfiar um rosário de clichês bonitinhos, frases feitas, com a profundidade de um pires. Talvez, os melhores candidatos sejam aqueles que não têm uma resposta na ponta da língua, mas demonstrem disposição em ouvir e acatar aquilo que a população deseja.

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