No começo dos anos 90, logo depois que fui aliciado pelo Jornalismo, recebi uma pauta aparentemente simples, mas que acabou se tornando emocionante e digna de recordação. A ordem era cobrir uma apresentação de fim de ano numa creche da cidade, evento que deveria ser descrito num texto de 10 linhas com uma ou duas fotos. No jargão das redações, uma “notinha”. Tarefa simples até para um novato, peguei uma câmera Yashica de quase dois quilos que tínhamos na redação e deixava o ombro dolorido, mais um flashe e um bloco e fui fazer a matéria.

Como já conhecia a diretora e algumas professoras, a recepção foi calorosa. Trocamos cumprimentos e me conduziram até a sala onde ocorreria a apresentação. Antes de os alunos, que deveriam ter entre quatro e cinco anos, se perfilarem, aconteceu o inusitado. Do meio da turminha, um pitoco de cabelinho castanho saiu correndo na minha direção com os bracinhos abertos. Quando me alcançou, grudou na minha perna e, para meu espanto e de todos que estavam próximo, começou a me chamar de… papai.

Claro que não era meu filho, embora, pela idade, até pudesse ser. Retribuí o carinho com um abraço e foi necessária a intervenção de uma professora para que ele voltasse à formação para cantar. A apresentação começou em seguida e confesso que o episódio tirou minha concentração. Pensava no que havia levado aquele menino a identificar a figura paterna em alguém que provavelmente nunca tinha visto. Na saída, a “tia” daquela turminha veio conversar comigo e falamos sobre o caso.

Segundo a professora, o garoto, assim como muitos outros, passava o dia todo na escolinha, enquanto os pais trabalhavam. O convívio familiar se restringia a algumas horas à noite e durante os finais de semana. Por mais atenção que as crianças recebessem na instituição, essa relação não supria de forma adequada suas necessidades de afeto. Em síntese, eram meninos e meninas muito carentes. Ela me perguntou se eu gostava de crianças e, quando respondi afirmativamente, explicou que muitos reconhecem esta qualidade nos adultos mesmo à distância.

Lembrei desse episódio quando conversava com um amigo no fim de semana e ele me contou o quanto sua relação com o filho se tornou mais intensa e qualificada durante a pandemia do novo coronavírus. O fechamento das escolas praticamente prendeu as crianças em casa e os pais estão sendo obrigados a se reinventar. Uma coisa é levar um menino à pracinha nos domingos à tarde. Outra é encontrar atividades para mantê-lo ocupado – e feliz – em tempo integral.

Nos primeiros dias, não foi fácil e a tarefa parecia um fardo pesado demais para carregar. Com o tempo, porém, meu amigo redescobriu o prazer do convívio, das brincadeiras, da leitura de histórias infantis, do dormir abraçado e do assistir aos mesmos desenhos e filmes várias vezes. Depois de descrever a programação das atividades – fiquei cansado só de ouvir – ele confessou que só agora, quase cinco anos depois do nascimento do guri, está se sentindo verdadeiramente pai.

Não sei se acontece o mesmo em todas as casas, mas se a pandemia está conseguindo aproximar as famílias de alguma forma, talvez o preço que todos estamos pagando tenha um importante “desconto” quando voltarmos à normalidade. Estar com os filhos por mais do que algumas horas por semana pode ser desafiador, mas é parte do “pacote” e fará grande diferença no futuro das crianças. Talvez, lá na frente, durante as apresentações da escolinha, elas não saiam atrás de um estranho em busca de carinho e atenção, embora eu deva admitir que aquilo fez muito bem para mim.

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