O ano de 1985 foi um marco na minha história. Filho de agricultores, até então vinha à “cidade” esporadicamente, apenas a passeio. De repente, vi-me trocando uma escola do interior, onde todos se conheciam desde o nascimento, por uma instituição com cerca de mil alunos, como era o colégio AJ Renner na época. A expressão “bullying” ainda não havia sido cunhada, mas o preconceito contra os “coloninhos” era escancarado. Não bastasse, em 60 dias, quebrei o braço duas vezes.

O ano de 1985 foi um marco na história do Brasil. Depois de 20 anos de ditadura, com os generais se revezando no poder, um civil foi eleito – de forma indireta, é verdade – para comandar o país. Nas ruas de todas as cidades, havia no ar uma esperança renovada, a fé de que a democracia era o remédio para os nossos problemas. Mas Tancredo Neves não assumiu e faleceu no dia 21 de abril, deixando na presidência o vice, José Sarney, ex-presidente do partido que havia dado sustentação aos militares. Entre o oito e o 80, ficamos no 40. De qualquer forma, as sementes plantadas naquela estação resultaram na volta das eleições diretas e na redação de uma nova Constituição.

Esta semana, a morte de Tancredo completou 35 anos e me voltaram à memória as imagens do povo chorando nas intermináveis filas para velar seu corpo. Ainda ouço a música “Coração de Estudante” ao fundo e lembro da cobertura que a imprensa deu ao nosso infortúnio coletivo. Como estava com o braço engessado e não podia me mexer muito, passava horas em frente à TV todos os dias. Devo ter assistido à maioria dos boletins médicos divulgados pelo jornalista Antônio Britto entre a internação, na véspera da posse, em 14 de março, e o comunicado oficial da morte.

Quando o presidente faleceu, eu ainda não tinha completado 13 anos, mas como sempre gostei muito de ler e assistia aos noticiários de TV, já tinha uma pequena noção da importância do voto direto. Na escola, nas aulas de Educação Moral e Cívica, embora criadas para servirem como ferramenta de manipulação política pela ditadura, aprendia-se conceitos como cidadania, direitos e deveres. E ainda que não fosse essa a meta, deve ter sido ali, nas reflexões promovidas pelos professores, que percebi a importância de ajudar a decidir o futuro do país.

Como disse na abertura desse texto, em 1985, eu fraturei o braço esquerdo duas vezes. Por muito tempo, senti um desconforto no local da ferida sempre que o clima mudava repentinamente, com aumento da umidade no ar. Acredito que não haja uma explicação científica para este fenômeno, mas conheço muita gente que tem a mesma sensação. Com a morte de Tancredo Neves, também a retomada do processo democrático sofreu uma fratura e, de vez em quando, em condições específicas de temperatura e “pressão”, fica “dolorido”. É uma desagradável lembrança de que um osso quebrado, por mais que esteja cicatrizado, é mais frágil e deve ser cuidado para que não se despedace novamente.

Não parece curioso que justamente na semana em que lembramos a morte do principal símbolo da redemocratização, em vários recantos do país, grupos de fundamentalistas políticos tenham ido às ruas pedir um novo golpe militar? Que exatamente agora reclamem o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal para que o presidente possa governar sozinho? A analogia não é perfeita, mas serve para o momento. A democracia brasileira é um osso e, ao longo da História, já precisou de muito gesso. Cabe a cada cidadão evitar que ela seja novamente fraturada por uma minoria fanática, que não sabe debater e se coloca na posição de dona absoluta da verdade.

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