Conheço um rapaz que não bebe água. Nunca! Da hora em que acorda até o momento em que deita para dormir, o único líquido que ingere é o refrigerante. Coca-cola, na verdade. Nada de leite, café ou chá: só refri. Se somar as latas e as garrafinhas, são mais de dois litros de caldo preto por dia. Ele tem 20 anos, trabalha e estuda, mas possui um estilo de vida sedentário, a maior parte do tempo em frente ao computador. Pesa uns 100 kg, mal distribuídos em 1m70 de altura, e é forte candidato a sérios problemas de saúde num futuro não muito distante. Ah… o vício leva uns R$ 200,00 por mês do seu salário.

Também conheço um senhor, de 62 anos, que fuma o tempo todo. Viúvo, ainda na cama, ao despertar, acende o primeiro cigarro, comportamento que se repete inúmeras vezes ao longo dia: antes e depois do café, do lanche, do almoço, da janta, ao chegar na sua oficina, ao sair da empresa, cada vez que vai fazer um serviço na rua… Na última vez em que perguntei, há uns seis meses, eram três carteiras por dia, ou seja, inacreditáveis 60 “pregos de caixão” a cada 24 horas. O “chaminé” tem enfisema, mas não se importa. Por mês, o vício lhe custa quase R$ 700,00.

Embora a diferença de idade, estas duas pessoas têm muito em comum. A começar pelo fato de que ambas sabem os riscos a que seus hábitos as submetem e, mesmo assim, não pensam em abandoná-los. A Coca-cola é muito mais saborosa do que a água, afinal. O cigarro, dizem os usuários, tem o poder de acalmar as pessoas. Outra característica que aproxima a dupla é a situação financeira. Ambos ganham muito bem e têm condições de sustentar estes perigosos “prazeres”.

É por isso que não acredito muito no sucesso de iniciativas como os projetos de lei que tentam aumentar os tributos sobre ítens que fazem mal à saúde. Há uma penca deles em tramitação no Congresso Nacional, quase todos amparados pelo poroso argumento de que, se os impostos forem mais altos, os preços irão subir e o consumo cairá. Talvez funcione nas camadas menos favorecidas da população, mas a tendência é a substituição dos produtos por outros, mais baratos e ainda mais nocivos, talvez de marcas diferentes.

A verdade é que tanto o refrigerante quanto o cigarro possuem, nas suas composições, elementos que causam dependência, o que dificulta o abandono, mesmo quando existe vontade. Logo, aumentar os impostos é atacar o problema na superfície. Se o objetivo é preservar a saúde da população, como os deputados adoram afirmar, é preciso atuar sobre as fórmulas, impedindo, em primeiro lugar, a adição de substâncias que ameaçam a vida no curto, médio e longo prazos. Mas isso a maioria não quer porque, obviamente, o sabor será outro.

Temos de superar a equivocada ideia de que tudo pode ser resolvido com aumento de impostos. Se refrigerantes e cigarros são um problema para a saúde pública, não é a sua transformação em artigos de luxo a forma mais eficiente de enfrentar o problema. Até porque, mesmo entre os que poderão continuar bebendo e fumando porque têm dinheiro, muitos acabarão no SUS para tratar das doenças relacionadas aos vícios. É o caso das duas pessoas apresentadas na abertura deste texto. Embora tenham condições, nenhum dos dois paga plano de saúde. Quando precisarem de uma cirurgia bariátrica e tratamento para o câncer de pulmão, é nos hospitais da rede pública que acabarão internados, onerando os contribuintes.

O princípio da liberdade é muito amplo e compreende até mesmo o direito de colocar a própria vida em risco. Mas isso nos leva a uma nova reflexão: até que ponto o contribuinte deve bancar a cura para quem nunca se importou com a própria saúde?

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