Não gosto de ir ao supermercado. Na verdade, detesto. Não me perguntem o motivo porque nem eu sei. Não há explicação razoável, um trauma ou experiência desagradável para culpar. De qualquer forma, eventualmente sou obrigado a enfrentar a maratona entre as gôndolas em busca dos melhores produtos por valores que tenham o tamanho do meu modesto saldo bancário. Como sou meio avesso às “experiências” gastronômicas, compro quase sempre os mesmos itens e as mesmas marcas, a não ser que haja uma diferença importante nos valores.

Nas últimas duas semanas, durante esta simples – mas torturante – tarefa, constatei que os preços estão mais altos. Pensei que fosse uma cisma, mas depois que um monte de gente começou a reclamar da carestia nas redes sociais, percebi que não foi apenas o meu dinheiro que encolheu. De cara, muita gente elegeu os produtores e os donos dos supermercados como “Cristo” e pôs-se a crucificá-los. Aproveitadores, bandidos e safados foram alguns dos adjetivos que usaram em seus ataques. Não posso falar pelos comerciantes, mas os agricultores eu faço questão de defender.

Em relação ao óleo de soja, cujo preço foi um dos que mais disparou, o principal motivo está no aumento da compra para a fabricação de biodiesel e na ampliação das exportações. O mesmo ocorre com o arroz. A substituição pela importação seria uma boa alternativa, mas com o dólar nas alturas, o que vem de fora ficou muito mais caro. Outros ítens, como o leite e os hortifrutigranjeiros, foram vítimas da estiagem no começo do ano e das baixas temperaturas de um inverno bem rigoroso.

Infelizmente, quando reclamam, muitos ignoram que, na base do sistema produtivo, existem famílias que trabalham muito para colocar comida na mesa das pessoas. Principalmente o pequeno agricultor brasileiro é pouco valorizado. O consumidor não se dá conta de que o leite vem de uma vaca, que precisa ser adequadamente alimentada, ordenhada e vacinada. Quando a seca e a geada torram as pastagens, o produtor é obrigado a adquirir ração, o que representa um custo adicional, obviamente repassado ao consumidor. Senão, morre de fome.

Na agricultura, da mesma forma, o risco do negócio é enorme e permanente. Pragas, vendavais, granizo, chuva em excesso ou em quantidade insuficiente muitas vezes destroem em poucos minutos um ano inteiro de trabalho e dedicação. Os seguros são tão caros que a maioria não consegue pagar porque isso simplesmente acabaria com a margem de lucro, necessária para continuar reinvestindo. Pergunte a um produtor rural o que ele sente enquanto você está vibrando com a previsão de neve. Ou quando, em meio a uma seca, você quer mais sol e calor para passar um fim de semana na praia.

Na última vez em que estive no supermercado, vi um casal reclamando do preço da bergamota Montenegrina, vendida naquele dia a R$ 4,99 o quilo. Enquanto eles praguejavam e matutavam se iam levar ou não, dei uma rápida e discreta olhada em seu carrinho. Estava quase cheio e a carga incluía itens como chocolates, bolos de caixinha, salgadinhos e pacotes de bolacha. Na parte de baixo, havia seis garrafas de cerveja, cujo preço unitário era R$ 4,69 (dei-me o trabalho de conferir) e dois “galões” de refri. Aposto que, ao passar pelas prateleiras onde o abasteceram, não tiveram as mesmas dúvidas diante de cada produto.

Os moradores da cidade não são obrigados a saber tudo que envolve a definição dos preços dos alimentos. Mas ajudaria se tivessem a chance de fazer um pequeno “estágio” na roça. Duas semanas seriam suficientes. Veriam que as bergamotas não crescem pela simples força do pensamento. E que preço mais alto nem sempre é sinônimo de roubo.

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