É fato que armas de fogo e veículos servem tanto ao mal quanto ao bem comum, dependendo do uso. A mesma faca com que se passa margarina no pão é um instrumento letal nas mãos de quem pretende tirar uma vida. Não é diferente com as palavras. Frases e expressões têm o condão de aplacar o sofrimento, mas também podem ser devastadoras quando, por trás delas, há uma mente perturbada ou ignorante.
Nesta terça-feira, segundo boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, o número de mortes confirmadas no Brasil por Covid-19, a doença provocada pelo coronavírus, chegou a 5.017, bem maior que as 4.643 informadas pela China, onde “nasceu”. Questionado por uma jornalista sobre a situação, o presidente Jair Bolsonaro respondeu: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.
Momentos depois, na mesma entrevista, Sua Excelência tentou se redimir. “Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas”, disse. “Mas é a vida. Amanhã vou eu. Logicamente, a gente quer ter uma morte digna e deixar uma boa história para trás”, ressaltou o presidente. Como não existem santos, nem mesmo nas redações, alguns veículos da mídia desprezaram a segunda parte da fala. Agiram mal, é preciso admitir, mas também é verdade que o presidente errou – e feio.
A pandemia de coronavírus está deixando o mundo inteiro com os nervos à flor da pele. No Brasil, milhões de pessoas dependem do auxílio emergencial do governo até para comer. O que elas desejam do seu presidente – no qual muitas votaram, por sinal – é um pouco de empatia e solidariedade. Ao chefe da nação, é proibida a produção de frases de efeito desprovidas de bom senso. É óbvio que ninguém espera que “este” Messias faça um milagre e ressuscite alguém, mas é correto imaginar que ele teria algumas palavras de conforto a oferecer.
Os robôs da internet rapidamente saíram em defesa do governante, alegando que a mídia estava fazendo mimimi e que a fala de Bolsonaro apenas expressa a realidade. O presidente da República, assim como o primeiro-ministro nos países parlamentaristas, não é um apenas um político escolhido para “tocar” os negócios do Estado. Ele possui uma função muito mais simbólica de liderança, de guardião das leis e de exemplo para seus governados. Um bom presidente da República, muitas vezes, faz o papel de “pai”, dizendo “não” quando necessário, mas nunca esquecendo que, depois de um tombo, o melhor remédio para um filho é um afago no cabelo e a promessa de que tudo ficará bem.
Este é um daqueles momentos de choro e ranger de dentes em que todos precisam de estímulo, de esperança. Vale também para os empresários. Apesar do medo de perderem seus negócios, as queixas não vão deixar a situação melhor do que está. Seus subordinados já sabem que os empregos correm perigo, mas estarão mais predispostos a ajudar a salvá-los se lhes for dada alguma expectativa. São, também, “filhos” à espera de ajuda e de uma palavra de consolo. Nesse aspecto, as declarações do presidente Bolsonaro apenas confirmam aquilo que todos já sabemos: ele até pode ser considerado, no futuro, graças ao seu ministério, um bom gestor, mas, como “pai” de família e da nação, é um desastre.

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