Morador de Rua. Mendigo. Sem Teto.

Como os estúdios de Hollywood voltaram a produzir, em larga escala, filmes de heróis que nasceram nas histórias em quadrinhos, o leitor provavelmente já ouviu que “grandes poderes vêm com grandes responsabilidades”. O alerta foi dado pelo “tio Ben” a Peter Parker, o fotógrafo que uma picada de inseto transformou no ágil e poderoso Homem Aranha. Muitos acreditam que trata-se de um lampejo da genialidade de Stan Lee, o criador do personagem, mas a verdade é que este conceito é muito mais antigo.
Garimpado na Grécia de Aristóteles e Platão, o princípio de que o homem deve retribuir aquilo que recebeu ou conquistou pelas próprias forças foi lapidado pelo filósofo francês Augusto Comte (1798-1857), o pai do Positivismo. Ele pregava que os poderosos – isto é, aqueles que têm poder e riqueza – devem agir de maneira a beneficiar a sociedade e não a usufruir seus recursos de forma egoísta. E quando fala de poder, não se refere apenas ao Político, mas também ao econômico.
Por séculos, em outra dimensão e escorada em diferentes argumentos, a Igreja também pregou a bondade como a verdadeira redenção. Na Bíblia, o evangelho de Mateus atribui a Jesus Cristo uma frase que nos deveria fazer pensar: “Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus. E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”.
Se tanto a Filosofia quanto a religião nos recomendam ajudar “ao próximo” por que, de um tempo para cá, parece que estamos nos distanciando dessa missão? Semana passada, durante a onda de frio que deixou a todos batendo queixo mesmo ao lado de fogões e lareiras, houve quem criticasse o socorro que os mais sensíveis estenderam a pessoas pobres, como os índios acampados nas imediações do Parque Centenário.
Nas redes sociais, era possível ver a baba de ódio escorrendo sobre o teclado, enquanto os dedos martelavam insultos aos primeiros donos destas terras. Nem mesmo o argumento de que havia crianças embaixo das lonas sensibilizou certas figuras. “Eles não trabalham”, “São vagabundos”, “Se der roupas, eles vendem” foram alguns dos argumentos que, infelizmente, nossos olhos leram.
De fato, somos livres para concordar ou não com o meio de vida dos índios, embora quase ninguém esteja disposto a compreender sua cultura e a reconhecer a responsabilidade dos nossos antepassados na situação em que se encontram. Mas e as crianças, que culpa têm de tudo isso? Só por que nasceram numa tribo Kaingang devem perecer quando os termômetros chegam a menos de zero grau? O curioso é que algumas destas mesmas pessoas curtiram e compartilharam a boa – mas, acima de tudo, midiática – ação do Inter e do Grêmio de socorro aos moradores de rua de Porto Alegre. Coerência zero!
Embora ninguém saiba quando, os cientistas concordam que, um dia, o planeta Terra será atingido por um meteoro com potencial devastador, capaz de eliminar a humanidade. Particularmente, aposto mais no surgimento de uma praga que, acabando com o homem, devolverá o planeta à condição original de Jardim do Éden. Talvez ela até já exista e esteja cumprindo seu papel. Pelo menos a humanidade, como substantivo que designa o sentimento de bondade, benevolência em relação aos semelhantes, ou de compaixão e piedade, esta, meus amigos, está em extinção há tempos. Apesar da Filosofia e da religião.

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