Modesto era um cara do bem. Formado em Sociologia, trabalhava na Prefeitura, onde passava os dias lidando com documentos antigos e embolorados no Arquivo Histórico. Usava máscara e luvas desde muito antes da pandemia e quando a Covid chegou, ele, que já estava acostumado a se proteger de ácaros e fungos, não sentiu maior impacto. Boa praça, Modesto tinha facilidade para fazer amigos e a franqueza era um traço marcante em sua personalidade.
Na faculdade, nosso personagem desenvolveu o gosto pela Política e se filiou ao Partido Sinceridade e União, o lendário PSIU, cujo principal objetivo era “despertar consciência”. Com as eleições chegando, a cúpula da legenda decidiu que ele era o melhor quadro para disputar a Prefeitura. Topou, mas estabeleceu uma condição: não iria mentir na campanha. Alguns caciques ficaram com o pé atrás, mas decidiram comprar a ideia. Passadas as convenções, a primeira entrevista.

– Bom dia, senhor Modesto. O que o levou a concorrer a prefeito?
Bom dia, é uma honra estar aqui conversando com os eleitores. O PSIU me escolheu porque não tinha outro nome e eu decidi aceitar porque vou ficar afastado do serviço durante a campanha, mas recebendo normalmente. Férias remuneradas, uma maravilha.

– Mas o senhor não quer trabalhar pela comunidade?
É claro que sim, mas veja: as minhas chances são pequenas e como decidi falar só a verdade, acho que pouca gente estará disposta a votar em mim.

– Então, quais são as suas principais propostas?
Em gostaria de construir escolas, ampliar o atendimento na saúde, tapar os buracos nas ruas e, principalmente, dar à minha cidade um governo honesto. Não será fácil. Primeiro, porque o PSIU tem um monte de gente que não é capaz de nada e outros que são capazes de tudo. Vou ter que dar cargos para alguns deles, mesmo sabendo que não vão render muito. Depois, se não abrir espaço para outros partidos na Prefeitura, não terei maioria na Câmara e podem até me cassar. Impeachment virou moda. Então, assim, a gente quer fazer muita coisa, mas não sei se vai dar.

– O senhor acha que existe corrupção na Prefeitura?
Não vi nada, mas deve ter. No Brasil inteiro tem.

– E como impedirá que roubem o dinheiro do contribuinte?
Boa pergunta. Olha, eu vou ficar em cima, escolher umas pessoas da minha confiança para fiscalizar, mas 100% não tem como garantir.

– Como o senhor pretende se comunicar com a população?
Através de reuniões nos bairros, no interior. Vamos abrir o gabinete pro povo, colocar um telefone e e-mail à disposição. Mas tem muita gente pedindo coisas o tempo todo e não tem dinheiro pra tudo. Então, vamos dizer na cara, na hora, o que dá para fazer e o que não dá. Nada de enrolação. Outra coisa: essa história de prefeito 24 horas é balela. O prefeito tem que dormir, namorar, passear, porque ele é uma pessoa, como tu. Imagina ficar enfurnado no serviço o tempo todo. Não tem quem aguente.

– Candidato, como o senhor vai atrair investimentos?
Nós temos uma lei que permite oferecer redução de impostos e serviços em troca de empregos e da geração de receitas. Vamos correr atrás das empresas, é claro, mas não podemos enganar a população: o sucesso disso depende muito da macroeconomia, das exportações, do dólar, de ter mão de obra qualificada na cidade. Então precisa fazer isso primeiro. Eu prefiro ajudar quem já tá aqui do que trazer empresas de fora, que se aproveitam dos incentivos e depois deixam a gente empenhado.

– A cidade está muito suja. Como resolverá esse problema?
Multando os porcos, lógico. Vamos diminuir CCs pra contratar fiscais. Vai tá cheio de fiscal na rua para notificar quem não cuida das calçadas, quem larga lixo no chão ou em terreno baldio. Não querem cuidar, vão pagar! Se todo mundo cuidasse da frente da sua casa, não tava assim.

– O senhor não acha que suas ideias podem espantar os eleitores?
Mas por quê? É exatamente isso que a maioria das pessoas diz que quer. Então vamos fazer desse jeito. Eu não vou mentir. Sou fiel ao meu partido, o PSIU, e quero despertar consciência.

Modesto repetiu tudo isso inúmeras vezes ao longo da campanha, Nas urnas, somou apenas 1% dos votos. Afinal, quem quer um político sincero como prefeito?

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