Tem muita gente que não acredita no Natal. Não estou falando do Papai Noel, aquele senhor barrigudo de barbas brancas, que sai por aí a bordo de um trenó puxado por renas, distribuindo presentes. Refiro-me à festa cristã propriamente dita, criada para lembrar o nascimento de Jesus, o filho de Deus mandado para viver entre nós e pagar nossos pecados com a própria vida. Conheço famílias que se reúnem na noite do dia 24 apenas para comer e beber até se empanturrarem, em eventos onde não há espaço para reflexão e, muito menos, para uma simples oração. Para elas, Natal é só troca de presentes, mais uma data comercial fincada no calendário para vender roupas, brinquedos, perfumes e eletrodomésticos.

Não tenho a pretensão de julgar alguém por conta de seu comportamento, mas é preciso lembrar que este dia pode, sim, ser mágico. Para isso, proponho um passeio pelo tempo, recuando até 24 de dezembro de 1914. O mundo vivia a primeira Guerra Mundial, um conflito de quase cinco anos, durante o qual cerca de 20 milhões de vidas foram ceifadas. De um lado, Inglaterra e França, num primeiro momento, e, de outro, a Alemanha e o então Império Austro-húngaro. No território da Bélgica, os exércitos inimigos se matavam como moscas. Entre as trincheiras, sacudidas por bombas e o matraquear das metralhadoras, havia uma pequena faixa de terras que ninguém ousava cruzar.

De repente, na noite de Natal, num dos poucos momentos de silêncio, os soldados ingleses ouviram um ritmo conhecido. Os “chucrutes” entoavam, de forma contida, o “Stille Nacht, Heilige Nacht”. Atônitos, os britânicos escutavam a melodia sem compreender o que diz a letra, mas rapidamente reconheceram que se tratava da versão germânica para a música “Silent Night”, que, no Brasil, conhecemos como “Noite Feliz”. Quando acabou, os ingleses aplaudiram os inimigos. Logo se ouviu um oficial alemão pedindo que não atirassem e que um capitão inglês o encontrasse entre as duas trincheiras.

Desconfiados, os dois exércitos mantiveram suas armas apontadas, mas nenhum tiro quebrou o silêncio. Numa rápida troca de palavras, combinaram uma trégua para, no dia seguinte, de forma respeitosa, enterrar seus mortos. Na manhã do dia 25, armados apenas de pás e de boa vontade, em conjunto, abriram centenas de covas. Quando o serviço foi concluído, um capelão alemão rezou uma missa, traduzida simultaneamente por um religioso inglês. Ao longo do dia, soldados inimigos trocaram parte de suas “rações”, presenteando-se mutuamente. Houve brincadeiras e até jogos de futebol com equipes dos dois lados se enfrentando de forma amistosa no barro.

A guerra estava apenas começando, mas a ideia de matar ou morrer por motivos que sequer conheciam, de repente, como por milagre, pareceu absurda demais para aqueles soldados. O cessar-fogo durou semanas. Na verdade, o derramamento de sangue só voltou de fato em março, quando os generais, encastelados bem longe da frente de batalha, exigiram a retomada dos combates. O conflito durou ainda longos e sangrentos quatro anos e não se tem notícia de outras tréguas desse tipo.

Com pequenas variações, esta história já foi contada diversas vezes em livros e filmes. Quando lembro dela, aumenta a minha convicção de que ali ocorreu um milagre. Se exércitos inimigos puderam cultivar a paz, é difícil imaginar que, pelo menos na noite de Natal, qualquer um de nós não possa também. Estamos diante de uma excelente oportunidade de exercitar o perdão e a humildade para reconhecer nossos erros e pedir desculpas. Num ano tão difícil, com tantas perdas e restrições, não vamos desperdiçar essa chance. Façamos nós o milagre com que sonhamos.

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