Antes de a tecnologia alcançar toda sorte de distrações às crianças e aos jovens, eram os livros que nos tiravam de vidinha simples do interior e nos levavam para conhecer o Pólo Norte, as areais do Saara, a passear pelas florestas da Europa e na savana africana. Bastava escolher o título e afivelar o cinto que a imaginação fazia o resto. Mas tinha um problema: para desfrutar dessas aventuras, era preciso saber ler muito bem. Felizmente, sou de uma geração que teve excelentes professores, que souberam semear e nutrir em mim e nos meus colegas o desejo de aprender. Pena eu ter demorado muito a valorizar este trabalho.
Desde os anos 80, quando ocorreram as mais longas greves do magistério, por muito tempo variei entre a total indiferença e a arrogante crítica de quem não consegue enxergar todos os lados de uma crise. Justo eu que, na condição de jornalista, tenho aí um dever de ofício. Pensava no aluno, que perderia conteúdo; e nas famílias, vitimadas pelo desarranjo diário imposto por escolas fechadas. Tudo isso parecia penoso demais. Acordei há cerca de 20 anos, quando finalmente me dei conta de que estes eram problemas menores diante do sucateamento do ensino que o desrespeito aos professores produzia em velocidade alarmante. Peço desculpas.
Assim como eu, parece que os gaúchos também estão acordando. A greve deflagrada no último final de semana pode parecer uma resposta pontual às mudanças no plano de carreira da categoria, mas é muito mais do que isso. É um grito de socorro de pessoas que estudaram muito para transmitir conhecimento e não recebem a contrapartida mínima. Que ganham mal, recebem com atrasos absurdos e de forma pingada. Todos os funcionários do Executivo convivem com isso, é verdade, mas é o professor o principal prejudicado por uma razão bem simples: os salários são os menores.
Para um delegado, um oficial da Brigada Militar ou um burocrata qualquer – para ficarmos somente entre aqueles que possuem curso superior (como os professores) – é mais fácil enfrentar esta crise. Seus contracheques são mais robustos e, por isso, conseguem “jogar” com o dinheiro para manter o acesso, pelo menos, ao básico. Um educador em fim de carreira, com mestrado e doutorado, custa ao Estado menos de R$ 5 mil. Um coronel, R$ 28 mil. Não é justo.
Aliás, a injustiça tem sido a regra, a começar pelo fato de que os servidores do Judiciário e do Legislativo, por terem orçamentos independentes, recebem em dia. Curiosamente, é aí que estão os vencimentos mais altos. Se a fonte pagadora é a mesma (os impostos), não há justificativa moral para tamanha discriminação. Por que um juiz, promotor ou assessor parlamentar deve ter prioridade sobre o professor que o capacitou para a função que desempenha? O argumento de que a lei manda é raso. Afinal, ela também determina que todos tenham os depósitos efetuados até o dia 30 e o governo a ignora há 47 meses.
Nada contra que os servidores públicos sejam bem remunerados se derem um retorno adequado à sociedade. O que precisa acabar é essa carga desumana sobre o magistério. Todos os governos, nas últimas décadas, trataram os professores sem o mínimo respeito e isso só ocorreu porque a sociedade permitiu. Não mais! Basta de injustiças!

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