Você já reparou que quando um político “famosão” fica doente ele costuma buscar atendimento em hospitais top de linha, como o Albert Einstein e o Sírio-libanês? Entre seus pacientes ilustres, há figuras da direita e da esquerda, como os ex-presidentes Sarney, Lula e Dilma e o atual, Jair Bolsonaro. Geraldo Alckmin, Paulo Maluf, Romeu Tuma, Luís Gushiken e até a supermodelo Naomi Campbell fazem parte dessa constelação que usufrui o bom e o melhor em termos de saúde no país.
Não é diferente quando o assunto é Educação. Prefeitos, governadores e deputados geralmente matriculam seus rebentos em escolas particulares. Ele$ podem. Claro que, no ensino superior, algumas das melhores universidades são públicas e é lá que estão os herdeiros de suas Excelências. Nem sempre por mérito, mas graças a bons – e caros – cursinhos, inacessíveis à maioria dos pagadores de impostos.
Foi por isso que a decisão de Helton Barreto, prefeito da cidade de General Câmara, na Região Carbonífera, deixou muita gente boquiaberta e ganhou espaço em vários jornais nesta semana. Podendo escolher entre a escola pública e a privada para seus dois filhos, de 5 e 8 anos, ele optou pela primeira. Chefe do Executivo de um município com cerca de 8 mil habitantes desde 2017, Barreto acredita que sua atitude contribui para que os eleitores confiem mais nos serviços da cidade. “Vejo que a educação é o caminho, não só aqui, mas em todo o Brasil. Acredito que manter os meus filhos na escola pública é uma forma de estarmos integrados à população e mostrarmos que temos confiança no serviço público”, declarou.
A raridade da decisão de Barreto evidencia a desvinculação do político brasileiro com a realidade na qual vive. Em muitos países, sobretudo na Europa, é comum e até esperado que políticos e seus familiares se utilizem do sistema público de saúde, transporte e educacional. No Brasil, infelizmente, o governante vive dentro de uma perspectiva totalmente diferente da realidade da população, presa no pântano dos boletos. E o pior: acha isso normal.
Agora vamos fazer um exercício. Supondo que todos os eleitos, do vereador ao presidente da República, fossem obrigados a usar apenas a estrutura de atendimento que serve ao resto da população, será que os serviços não iriam melhorar? Se um deputado tivesse de ficar até dez horas numa fila por consulta médica ou esperando por dois anos por um simples exame, não haveria mais dinheiro para o custeio do setor? Caso o filho do governador fosse obrigado a frequentar a mesma escola onde estuda o neto da empregada doméstica, faltariam professores e haveria goteiras nas salas de aula? Sabemos a resposta.
Já houve, lá em Brasília, deputados propondo leis com este objetivo. Obviamente não avançaram, sob o argumento de que são inconstitucionais, pois a todos é facultado o direito de escolha. É uma pena. Não existe razão legítima para que nossos políticos sejam privilegiados. Nas próximas eleições, antes de votar, procure saber onde os candidatos se tratam quando adoecem e em que escolas mantêm seus filhos. Vamos ver se eles são mesmo “gente como a gente”.

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