Nenhuma ditadura presta. Não importa se ela tem inspiração de esquerda, como a que foi imposta pelos irmãos Castro aos cubanos; ou de direita, tipo a de Augusto Pinochet no Chile. No momento em que um governo revoga liberdades individuais e persegue opositores, perde a legitimidade. A Democracia, como a conhecemos hoje, tem suas raízes encravadas na antiga civilização grega, mas é um fenômeno relativamente novo, com o qual ainda precisamos aprender a conviver.
O chamado “poder do povo, pelo povo, para o povo” na era contemporânea só se tornou realidade, de fato, no fim do século XVIII, depois da independência das colônias inglesas na América, em 1776, e da Revolução Francesa de 1789. São, portanto, menos de 250 anos de experiências, algumas bem sucedidas e outras nem tanto. Nesse período, mesmo nações relativamente prósperas tiveram seus governos de força, como a França, com Napoleão; a Alemanha, com Hitler; a Itália, com Mussolini; a Espanha, com Franco; e Portugal, com Salazar, para citar apenas algumas.
Não foi diferente entre os países que adotaram o Comunismo como sistema de governo. Na Rússia, na Iugoslávia, na Romênia, na China, em Cuba e na Coréia do Norte, as populações viveram por décadas – e em algumas ainda vivem – sob o tacão de generais e de políticos sustentados no poder pelas forças armadas. No Oriente Médio, alguns territórios sequer experimentaram o prazer do voto e, na África, mesmo governos eleitos democraticamente costumam ser ceifados pela lâmina de facões e substituídos pelos senhores da guerra de plantão.
No Brasil, a Democracia chegou em 1889, com a deposição do imperador Pedro II e a proclamação da República. São quase 130 anos desde aquele histórico 15 de novembro. Neste período, tivemos duas ditaduras – a de Getúlio Vargas (de 1937 a 1945) e a militar, entre 1964 e 1985 – que nos roubaram 29 anos de plena liberdade. Nos dois períodos, houve perseguições e mortes, feridas que demoram a cicatrizar.
É muito bom poder manifestar aquilo que a gente pensa sem o medo de ser preso por isso. É maravilhoso escolher uma profissão e, com o próprio trabalho, sem a ingerência do Estado, alcançar o sucesso. É impagável o direito de ir e vir sem a necessidade de autorização. Não tem preço a liberdade de escolher uma religião ou simplesmente não ter fé. Quando os gregos Platão e Aristóteles deitaram as pedras angulares do conceito de Democracia, nem eles foram tão longe. Defendiam que o poder deveria ser exercido apenas por filósofos, os sábios de então, e que o voto era privilégio dos mais ricos.
Milhares de anos se passaram e ora evoluímos, ora cambaleamos para trás. O sistema não é perfeito, mas só vivendo nele, com liberdade, poderemos aperfeiçoá-lo. Por isso, nada mais inoportuno que as comemorações do golpe de 64 autorizadas pelo presidente Jair Bolsonaro para este domingo. Espera-se que os militares tenham mais sensibilidade do que o chefe de nação e cancelem qualquer festa para quem sequestrou o que de mais importante conquistamos.

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