Já assisti a muitas novelas e não vejo problema em confessar, mas ultimamente o gênero não me interessa tanto. Prefiro os filmes, com início meio e fim em poucas horas; e as séries dos serviços de streaming, que a gente pode ver quando e pelo tempo que desejar, incluindo maratonas de tardes e noites inteiras se a história for boa. Entretanto, esta semana, vi-me diante da TV saboreando um dos capítulos da nova trama das 18h na rede Globo, “Éramos seis”.
Esta é a quinta vez em que a obra de Maria José Dupré está sendo adaptada para a TV. Não vi as anteriores – talvez alguns capítulos, eventualmente – mas conheço a história porque li o livro. Publicado em 1943, ele chegou às minhas mãos bem depois, nos anos 80, quando passou a integrar a fantástica série Vaga-lume, junto com dezenas de outros títulos. À tarde, depois do “tema”, gostava de sentar num canto e me entregar à leitura.
Em tese, “Éramos seis” não deveria ter despertado em mim qualquer tipo de emoção naquela época adolescente. Afinal, o livro não tem mocinhos e bandidos, aventureiros, monstros ou espadachins. Traz, ao invés disso, uma história relativamente triste, sobre uma família de classe média baixa vivendo na São Paulo do começo do século XX. Júlio e Lola procuram dar aos quatro filhos uma boa educação, ao mesmo tempo em que trabalham duro para colocar comida na mesa e pagar as prestações da casa em que residem.
A história avança preguiçosamente – como uma tarde sem TV, internet e celular – contando as desventuras dos seis. Morre Júlio e depois o filho mais velho. Outro precisa fugir por conta das falhas de caráter que o levam à criminalidade. O mais novo se muda para o Rio de Janeiro para trabalhar e se casa com a filha dos patrões. Já a menina se apaixona por um homem mais velho e desquitado, pecado que a sociedade moralista da época não perdoa. Todos estes acontecimentos levam a um fim melancólico: dona Lola praticamente sozinha, vivendo num quarto alugado.
“Éramos seis” é isso: “matéria humilde e humilhada”, como dizia o poeta Ferreira Gullar, uma história que, com pequenas variações, poderia ser minha, sua ou de qualquer outra pessoa. Ao mesmo tempo em que apresenta situações de violência, de traição, de sofrimento, de perda e de dor, contém momentos edificantes de união, de convívio, de respeito, de superação, de empatia… O livro faz chorar, mas também desperta gargalhadas. Mostra o pior e o melhor do ser humano.
A obra de Maria José Dupré tem sido apresentada como uma produção de época. Afinal, a maioria já não tem o rádio como principal meio de informação, não compra “no caderninho” no mercado da esquina e nem joga bola até tarde com os amigos num terreno baldio transformado em campinho. O lazer não é mais o passeio na praça depois da missa e beijo roubado, sem que ninguém veja, virou cafonice.
Por outro lado, a leitura de algumas páginas e, certamente, o acompanhamento de poucos capítulos, mostra que esta história é de todas as épocas. A maioria dos pais continua lutando para dar o melhor aos filhos, que às vezes os desapontam e, mesmo assim, recebem seu perdão infinito porque são amados incondicionalmente. Eles orientam, mostram o certo e o errado, mas não podem viver a vida por eles. Pensando bem, “Éramos seis” tem, sim, seus heróis. São as pessoas comuns, que fazem tudo que podem para manter as famílias unidas e felizes. Nem sempre conseguem, como a dona Lola, o que não a torna menos venerável. Acho que vou tentar assistir a esta novela.

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