Em todos os canais, o noticiário está cheio de histórias de crime e de violência. Furtos, assaltos, assassinatos e outros atentados são tão comuns que, às vezes, ficamos com a impressão de que “ninguém presta”. A ideia de que o homem é capaz das atitudes mais rasteiras para se dar bem inquieta o mundo há muitos séculos. Lá por 300 aC, o grego Diógenes andava pelas ruas de Atenas com uma lanterna, em pleno dia. A quem o perguntava sobre as razões daquilo, ele dizia que estava à procura de um homem honesto. A metáfora é óbvia. Naquele tempo, pessoas sérias e decentes já eram um produto raro, a tal ponto de apenas a luz do sol não ser suficiente para revelá-las.

Felizmente, de vez em quando, surgem exceções para confirmar a regra. Uma delas aconteceu na Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Materiais Recicláveis de Araçatuba, no interior de São Paulo. Profissionais da reciclagem encontraram R$ 36 mil dentro de um cofre abandonado. O dinheiro é muito mais do que os cerca de 20 associados conseguem faturar ao longo de um mês na separação de resíduos e, mesmo assim, eles fizeram o certo: devolveram tudo.

A recicladora Sílvia Cristina dos Santos, coordenadora de pátio da associação, foi uma das pessoas que descobriram o dinheiro. Ela e mais um colega de trabalho tentavam carregar o cofre, quando caiu uma nota de R$ 100,00 de dentro dele. “Estávamos tentando levar o cofre para usar como base a um tambor de água que usamos para lavar louças, depois que perdemos quase tudo num incêndio na sede”, revelou a trabalhadora. “Na hora, começamos a brincar que dividiríamos o dinheiro, mas não era sério. Levamos o cofre para a secretária da associação e chamamos a Polícia”, descreve Sílvia.

Essa incrível história começou em 2018, em Aurifilma, outra cidade do interior de São Paulo. Um idoso foi vítima de assalto e, entre os itens levados, estava o cofre, que originalmente continha R$ 167 mil. O dono guardava todo seu dinheiro lá dentro porque não sabia lidar com caixas eletrônicos. Do montante, uma parte foi deixada num fundo falso, que os criminosos acabaram não encontrando na época. Mais tarde, o objeto, totalmente danificado, foi apreendido em uma operação policial.

Aparentemente vazio, acabou num depósito da Polícia, que decidiu repassá-lo aos recicladores porque não localizou seu dono.
O proprietário soube da localização através da imprensa e, para provar que o cofre era mesmo seu, foi à Polícia com a chave, que ainda estava em seu poder. Ela coube perfeitamente na abertura e a sobra de sua “fortuna” lhe será devolvida assim que sair a ordem judicial. Aos catadores, restou uma leveza e uma paz de espírito que dinheiro nenhum é capaz de comprar. “Nós sabemos que a honestidade vem em primeiro lugar”, definiu a recicladora Sílvia Cristina dos Santos.

A atitude dos trabalhadores virou notícia no mundo todo e gerou espanto porque, verdade seja dita, a maioria não teria feito o mesmo. A sociedade até cunhou a expressão “achado não é roubado” para legitimar a apropriação indevida daquilo que o acaso nos deu sem que nada tivéssemos feito para merecer. É sempre bom saber que nem todos acendem velas ao deus “Dinheiro”. Não sei se a história de Diógenes é verdade ou se não passa de um mito, mas se ele andasse por aí e se deparasse com brasileiros humildes como estes catadores de Araçatuba, sua lanterna seria desnecessária para separá-los do joio da raça humana. Gente honesta tem sua própria luz e ela brilha ainda mais do que o sol.

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