A violência e a má qualidade do ensino estão servindo de muletas para um projeto polêmico do governo Bolsonaro: a educação domiciliar de crianças e adolescentes, prática conhecida como homeschooling. Um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional traz os requisitos mínimos que os pais ou responsáveis legais deverão cumprir para exercer essa opção, como o cadastro em plataforma a ser oferecida pelo Ministério da Educação (MEC) e a possibilidade de avaliação.
O homeschooling não é algo propriamente novo. Aliás, antes de existirem escolas regulares, mantidas inicialmente por congregações religiosas e grupos de famílias, era dessa forma que as pessoas aprendiam a ler e a escrever. Quem dominava o conhecimento o repassava aos demais familiares, num esquema doméstico, sem regras mais efetivas. O que se aprendia era basicamente a ler, a escrever e as operações matemáticas. Os mais ricos e abastados, com prole numerosa, contratavam tutores para instruir os filhos. Estes recebiam lições de História, Geografia, Artes, Línguas, Filosofia, Literatura e tudo mais que o dinheiro pudesse comprar.
Obviamente que este modelo produzia desigualdades sociais, pois a cultura e o conhecimento só estavam à disposição dos nobres. O Estado moderno percebeu a distorção e encontrou na escola que temos até hoje o remédio para essa triste distorção. Nela, todos passaram a receber os mesmos conteúdos e, aprovados, a buscar as mesmas oportunidades. Ainda que haja instituições públicas e privadas, as grades curriculares são as mesmas. Uma vitória do processo civilizatório.
O argumento de que manter as crianças e os adolescentes estudando em casa é mais seguro não é totalmente descabido. Porém, há vários fatores a serem considerados. O primeiro é a troca e as experiências proporcionadas pelo convívio com outras crianças da mesma faixa etária. É nessa interação que o menor aprende a se defender, a argumentar, a trabalhar em grupo, a enfrentar desafios com que certamente não se depararia num ambiente doméstico, controlado. Isso faz com que cresça como ser humano, como cidadão.
É claro que existem alunos desajustados, professores desmotivados e uma boa dose de “balbúrdia”, como diz o ministro da Educação, em muitas instituições de ensino. Mas também é verdade que, todos os anos, o Brasil forma milhões de excelentes profissionais, das mais diversas áreas, muitos – a maioria – egressos dessa escola que o “bolsonarismo” adora demonizar. Quanto ao argumento de que há doutrinação ideológica na sala de aula, impossível negar que existem abusos, mas eles ocorrem tanto à “direita” quanto à “esquerda”. A escola é um espaço para discutir, divergir, aprender a pensar. Se a “lavagem cerebral” a que se refere o presidente fosse tão profunda, o PT e seus aliados não teriam perdido as eleições.
O homeschooling agravará ainda mais o sucateamento da Educação, ao mesmo tempo em que tornará o ensino básico um produto a ser vendido pela iniciativa privada. Para o governo, é uma forma rasteira de eliminar despesas, demitindo professores e fechando escolas, transferindo o ensino para dentro das casas sem um sistema de fiscalização eficiente sobre os conteúdos repassados.
Se você não concorda com nenhum desses argumentos, faça um exercício. Imagine-se aos oito anos, tendo aulas todos os dias na sala de casa, com sua mãe, tia, ou irmã mais velha, sem amigos para brincar no recreio e atividades em grupo. Parece chato, não é? Se a lei permitir, muitos pais farão esta opção, condenando os próprios filhos a uma espécie de prisão domiciliar. Não seria melhor recuperar a escola pública?

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