Com as aulas suspensas pela pandemia do novo coronavírus e presas dentro de casa, muitas crianças e adolescentes têm, na internet e nas redes sociais, seu maior passatempo. São horas e horas diárias de jogos, vídeos, música e bate-papos virtuais bem reais e, às vezes, perigosos. O momento é de fragilidade, o que torna os menores ainda mais suscetíveis ao ataque de criminosos, hackers e pedófilos. Como muitos pais são semianalfabetos digitais e não podem estar presente o tempo todo – até porque qualquer relação exige boas doses de privacidade e confiança – as preocupações entre os adultos crescem. Com razão.

Depois da Baleia Azul e da Boneca Momo, esta semana, a Polícia caçou um novo “monstro” que assombrava nossos filhos. Trata-se de um personagem conhecido como “Homem Pateta”. Ele ameaçava crianças na internet por meio de um aplicativo de mensagens com desafios de automutilação e suicídio. O bandido, que se apresentava com uma fantasia do personagem Pateta, dos desenhos da Disney, fazia amizade com os pequenos. Depois falava que conhecia a família deles, onde moravam e que algo de muito ruim aconteceria caso a criança não aceitasse o desafio proposto.

O “Homem Pateta” propunha uma espécie de game, em que o praticante ia ganhando status ou pontos à medida que realizava as tarefas. Com algumas variações, começava com pequenas “artes” dentro de casa e evoluía para provas físicas, que deviam ser filmadas para envio ao criminoso. Nos níveis mais altos, aí já sob ameaças, os “participantes” deviam praticar furtos, danificar o patrimônio público, fazer cortes nos braços ou pernas. O desafio final costumava ser algo muito perigoso, que podia resultar na morte.

Quando nos deparamos com este tipo de relato, é natural que se queira proteger as crianças e os adolescentes desses adultos inescrupulosos. O problema é que nem sempre os bandidos têm mais de 18 anos. O “Homem Pateta”, por exemplo, é um garoto de 12 anos, morador de Sorocaba, interior de São Paulo. Ele foi detido após o cumprimento de um mandado de busca e apreensão, mas acabou liberado. O caso foi encaminhado para a Vara da Infância e Juventude. Mesmo que seja considerado culpado, como é inimputável, a pena é socieoeducativa, com possibilidade de privação da liberdade por até três anos.

Ao ser questionado sobre as razões dos seus atos, o pirralho disse que estava “brincando” e que não queria machucar ninguém. Este é o ponto: a dificuldade de distinguir o que é uma brincadeira de algo potencialmente perigoso. E é aí que entram os adultos, especialmente os pais, os avós, irmãos mais velhos, tios e dindos. Ao mesmo tempo em que precisamos orientar as crianças e os adolescentes sobre o risco de se comunicar com estranhos para não se tornarem vítimas, também é preciso educá-los para não fazerem o mal aos outros.

Conviver e dialogar é extremamente importante, mas não existe remédio mais poderoso do que o bom exemplo. Impedir que nossos filhos cresçam como jovens “doentes” impõe, primeiro, a nossa própria cura. E esse processo começa com a aceitação de que a nossa verdade não é a única, que nossas vontades não são soberanas e que a dor dos outros deve ser respeitada. Meninos e meninas só vão respeitar as pessoas se forem inspirados por adultos respeitosos. A regra é simples: não devemos fazer aos outros aquilo que não desejamos que nos façam. Quando realmente agirmos assim, nossos filhos não serão mais vítimas dos canalhas escondidos na rede. E nem criminosos.

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