O indiciamento pela Polícia Federal por irregularidades na prestação de contas da campanha de 2016, divulgado na semana passada, coloca o prefeito Kadu Müller numa situação delicada. Pelo menos 15 pessoas que aparecem nos documentos como doadoras disseram que não contribuíram para a coligação PSB/PRB/SD e, segundo a PF, suas assinaturas foram falsificadas. Aparentemente, a candidatura Aldana/Kadu recebeu dinheiro escuso para custear a corrida pelos votos e, para esquentar o dinheiro, usou os nomes de pessoas que constavam no cadastro do Bolsa Família. Na época, o então prefeito Aldana concorria à reeleição e sua equipe tinha acesso a estes dados. Com base nos depoimentos e na papelada que o inquérito reuniu, é provável que a dupla seja processada por crime eleitoral e falsidade ideológica, pela adulteração das assinaturas e apresentação de documentos “frios”.

Golpe
Nos depoimentos à Polícia Federal, tanto Aldana quanto Kadu repetiram o mantra que caracteriza a defesa de dez entre dez políticos brasileiros acusados de irregularidades: não sabiam de nada. Ambos asseguraram que não tiveram envolvimento com a arrecadação de fundos para a campanha e nem com a posterior prestação de contas. Aldana chegou a dizer que, desde a vitória, havia uma articulação em marcha para derrubá-lo.

Palestrante
O atual prefeito, que herdou o mandato em agosto de 2017, quando Aldana foi cassado pela Câmara por fraudes em licitações denunciadas na Operação Ibiaçá, também assegurou que nunca pediu dinheiro para ninguém. Deve ser mesmo maravilhoso participar de uma campanha como candidato e não ter de se preocupar com a busca dos recursos e, no fim, ainda vencê-la. Algumas pessoas pagariam para assistir a uma palestra sobre isso.

Imagem
Dificilmente uma condenação em primeiro grau seria suficiente para afastar o prefeito do cargo, em virtude dos recursos possíveis. A sentença teria de, pelo menos, ser confirmada pelo Tribunal, o que pode arrastar a discussão por vários meses. Mas o estrago à imagem do prefeito será monumental.

Eleições roubadas?
Ainda que não admitam, integrantes do governo estão absolutamente tensos. O prejuízo à candidatura pela reeleição é inegável, mas não é isso que aflige agora. Há poucas semanas, a Câmara de Vereadores quase instalou um processo de Impeachment por causa de um discutível pagamento da Prefeitura à Unimed. Há o receio de que alguém pegue o inquérito da Polícia Federal e monte um novo pedido, alegando que as eleições de 2016 foram fraudadas.

Direitos políticos
Do ponto de vista prático, Aldana e Kadu possivelmente responderão a processos semelhantes se o Ministério Público considerar robustas as provas obtidas pela Polícia Federal. Como o ex-prefeito está afastado da Política, é Kadu quem tem de se preocupar mais. Os crimes de que está sendo acusado possuem penas que vão até cinco anos de prisão e mais o pagamento de multas. Contudo, se for condenado a apenas um ano de reclusão, ele já perde os direitos políticos e, com eles, o cargo e a possibilidade de concorrer novamente.

Sede de poder
Irônico que a principal vítima de tudo isso, depois da comunidade montenegrina, é claro, seja o Partido Progressista. Foram seus integrantes que, logo depois da eleição, denunciaram as irregularidades contra Aldana e Kadu só agora confirmadas. Em troca de alguns meses de poder, talvez tenham jogado um mandato inteiro (2021-2024) na lixeira.

Dilema
Um terceiro processo de impeachment no Município, em apenas quatro anos, seria péssimo para a imagem da cidade e tornaria Montenegro motivo de piada em todo o Rio Grande do Sul. Por outro lado, saber que algo pode estar muito errado e deixar passar não é correto. É um verdadeiro duelo entre verdade e estabilidade. Chora, Montenegro!

Fundo do poço
Vai levar algum tempo, porque é necessário um certo distanciamento histórico, para que se compreenda exatamente o que nos fez chegar ao fundo do poço. A Cidade das Artes, que era reconhecida pelas pessoas como um bom lugar para viver, perto da capital, agora é manchete pela falta de qualidade dos seus políticos. Em que momento a sociedade entregou o controle a pessoas despreparadas, arrogantes e sem o espírito público necessário para chegar ao poder e se manter nele com dedicação e honestidade? Um dia saberemos!

Posse questionada
A Câmara aprovou uma licença de duas semanas para o vereador Talis Ferreira (PR), abrindo vaga para o suplente Paulo Azeredo (PDT) assumir nesta quinta-feira. Contudo, os ex-vereadores Renato Kranz e Márcio Müller, que participaram ativamente do seu processo de cassação, em 2015, fazem um alerta. Segundo a dupla, o decreto Legislativo emitido após o Impeachment, impede que ele assuma qualquer cargo público por oito anos.

Improbidade – Como o documento não foi anulado pelo Judiciário, a proibição estaria em vigor. Renato vai além: “se o presidente da Câmara der posse e pagar salário, ele comete crime de improbidade e descumpre um decreto do próprio Legislativo”.

Liberado – Na Câmara, por enquanto, o entendimento é de que se a Justiça Eleitoral validou os votos de Azeredo para a Câmara e o diplomou como suplente, nada impede que exerça o mandato.

Foto “suspeita”
Uma visita do vereador Talis Ferreira à casa do líder pedetista Clóvis Domingues, o Cafundó, “causou” nas redes sociais. Eles tiraram uma foto com o ex-prefeito Paulo Azeredo e a legenda fala em construção de uma candidatura. O vereador foi eleito numa coligação do seu partido, o PR, com o PDT, mas desde o começo do mandato, esteve ao lado de Aldana e depois Kadu.

Troca de lado – Segundo uma pessoa muito próxima ao prefeito, assim como trocou de lado ao assumir, Talis pode estar fazendo o mesmo agora, quando o governo – que o tratou como queridinho por mais de dois anos – está sob ataque.

Viável – Teoria da conspiração ou não, Talis hoje é mais popular – e viável como candidato a prefeito – do que Azeredo.

RAPIDINHAS
Vereador Valdeci Alves de Castro (PSB) renunciou ao cargo de segundo secretário da mesa diretora da Câmara. Justo agora que sua participação na sessão seria super necessária. Com o afastamento temporário de Talis Ferreira, que é o primeiro secretário, caberia a Valdeci a leitura das atas, do expediente e das correspondências encaminhadas ao Legislativo.

Depois que o Progressistas o trocou por Kadu Müller para a disputa da Prefeitura em 2020, o ex-vereador Gustavo Zanatta já havia decidido que iria recomeçar. Pretendia concorrer novamente a uma cadeira na Câmara Municipal, onde esteve entre 2013 e 2016. Agora tudo mudou. Ele vai deixar a legenda e se filiar ao PTB, que lhe ofereceu a cabeça de chapa.

Junho é o mês de São Pedro – dia 29 – e talvez por isso ele tenha ouvido as preces dos montenegrinos que precisam de tempo bom para a recuperação das estradas. A maior parte dos dias foi de sol e até de calor, o que permitiu à Prefeitura realizar melhorias em várias regiões. Mesmo assim, a solução dos problemas exige a intervenção de Santo Expedito.

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