Na estrada de Campo do Meio, entre a escola e o acesso a Lajeadinho, existe uma curva acentuada, onde naturalmente os motoristas são obrigados a reduzir a velocidade. No começo dos anos 80, junto à propriedade do senhor Otto Weber, a valeta por onde a água da chuva deveria ser escoada entupiu. Rapidamente, uma grande poça se formou, ocupando quase a metade da via pública. Em casa, fomos orientados a tomar cuidado quando passássemos por ali. Se surgisse um carro na hora em que estivéssemos caminhando naquele trecho, o risco de atropelamento era maior. Esperava-se que logo apareceria uma equipe da Prefeitura para resolver o problema.

Infelizmente, já naquele tempo, o interior sofria de um grave abandono. A tal ponto de muitas crianças não saberem o que era uma patrola, aquele trator amarelo “musculoso” que tem uma lâmina de ferro na base e é usado para nivelar a rua. Seu ronco assustava os pequenos, mas, ainda assim, a “visita” era necessária para reduzir a buraqueira. Na curva a que me referi, porém, o serviço exigia outro equipamento, também amarelo e robusto, que jocosamente as pessoas chamavam de “mão-de-padre”, um apelido politicamente incorreto para retroesacavadeira.

Não sei se na época, 1980 ou 1981, a Prefeitura já não tinha máquinas suficientes para atender as comunidades rurais, mas o fato é que o tempo passava e a poça d’água continuava lá, berço esplêndido para mosquitos e sapos. Certo dia, ao nos aproximarmos do local na ida para a escola, vimos um pedaço de madeira fincado na água e, nele, escrito em letras de forma provavelmente com carvão, uma frase que nunca esqueci: “Vaceli. Você foi parar logo aqui”. Era uma crítica bem humorada ao então secretário de Viação e Serviços Urbanos, Vaceli Flores de Oliveira.

Nunca soube quem foi o autor daquele “meme pré-histórico”. Pode ter sido um morador da localidade, até mesmo um dos guris da escola, o fato é que muita gente passou a comentar. Se Campo do Meio tivesse jornal na época, provavelmente a foto teria conquistado um espaço na capa, sob o título “Valeta entupida gera protesto” ou “Secretário é criticado por abandono da estrada”.

A placa acabou desaparecendo depois de alguns meses, mas a água parada continuava lá… parada, multiplicando insetos e girinos. De repente, apareceu outra provocação, num suporte parecido, desta vez com um alerta muito útil: “Proibido pescar”. Desconfio que o autor tenha sido o mesmo e aposto que se deu bem na vida como humorista ou publicitário, quem sabe? Toda vez que vou para o interior, eu lembro do episódio e como as valetas continuam entupidas e a água empossada engole parte das estradas em muitas localidades, fico tentado a espalhar placas semelhantes àquelas que vi na infância.

Mais de 40 anos já se passaram e as comunidades da zona rural ainda enfrentam os mesmos problemas. A situação, inclusive, piorou porque hoje há muito mais carros em circulação e a quantidade de caminhões transportando frutas, aves, porcos e lenha foi multiplicada várias vezes. As estradas se deterioram muito mais rápido. Os agricultores se modernizaram, compraram máquinas e tratores para tocar o plantio e a colheita. Aprenderam a adubar a terra e a tirar dela muito mais do que no passado. Já o poder público segue fazendo a manutenção das vias da mesma forma. Seus comandantes sequer aprenderam a importância de abrir as valetas e mantê-las desentupidas. São dinossauros, grandes, lentos e pesados, desafiando as leis da natureza, flertando com a extinção.

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