Semana passada, na Inglaterra, uma jovem de 24 anos foi presa ao participar de um concurso que pretendia eleger a Miss Hitler. Ela e o namorado, de 25 anos, faziam parte do grupo neonazista National Action — banido do Reino Unido em 2016. O homem também foi detido porque, na terra de Sua Majestade, a apologia ao regime que mergulhou o planeta na sua mais sangrenta guerra e dizimou em torno de 6 milhões de judeus é crime. E pode até parecer estranho por aqui, mas, em alguns países, o desrespeito às leis dá cadeia.

A notícia chama a atenção para algo comum em diversas partes do mundo nos últimos anos: o fascínio que as ideias e as práticas do Führer ainda despertam, sobretudo entre os mais jovens. Existem muitas teorias a respeito, que, em geral, citam uma predisposição maior entre pessoas de baixa autoestima, vítimas de violência ou que não possuem uma boa estrutura familiar. Também há quem defenda a pouca escolaridade como razão. O fato é que algumas lideranças realmente conseguem convencer e usam esse talento de forma errada, tornando o mundo um lugar muito mais perigoso.

Em 1967, o professor Ron Jones, de Palo Alto, na Califórnia, quis ensinar, na prática, como seus alunos poderiam ser coagidos a serem cúmplices de um regime extremista como o Nazismo. Ele tinha 25 anos na época e era considerado um educador carismático e bem quisto pelos jovens. “Vamos fazer um experimento, um experimento não ameaçador”, disse ele a seus alunos. A partir daquele momento, Jones começou a agir com mais severidade que o habitual e implementou um novo conjunto de regras nas suas aulas.
Uma delas era recebê-lo de pé, na sala. Rapidamente, por iniciativa dos próprios jovens, eles criaram uma saudação, muito semelhante ao braço direito estendido, usada pelos nazistas, e uma logomarca. O professor também incentivou a gurizada a se cumprimentar desta forma entre eles. Tudo parecia divertido, uma fuga da monotonia do Ensino Médio. Logo, os jovens foram estimulados a delatar aqueles que não seguiam as regras do grupo e uma escala de punições foi estabelecida, incluindo o banimento. Ficou claro que o receio de ser excluído levou muitos a obedecer as orientações.

Aquilo que havia começado na sala de aula rapidamente se espalhou pela escola e, em poucos dias, a “3ª Onda”, como o projeto foi chamado, tinha mais de 300 participantes. Ron também inoculou no grupo ideias antidemocráticas e, como zumbis, muitos jovens pareciam dispostos a calar, à força, qualquer voz contrária. Houve violência e uma criança chegou a perder a mão construindo explosivos. Quando percebeu a proporção que o “experimento” estava assumindo, o professor reuniu o grupo num ginásio de esportes e explicou o que tinha acontecido, deixando a todos surpresos com a facilidade com que foram manipulados.

As técnicas usadas pelo educador americano não diferem muito dos métodos empregados por algumas lideranças religiosas sem escrúpulos. Elas não oferecem apenas respostas prontas a qualquer questionamento, mas também certezas absolutas, que dispensam o diálogo e o aprendizado. E como ler e refletir podem ser tarefas difíceis para quem não foi acostumado, é fácil cair na “onda” e apontar o pensamento divergente como “comunismo” ou “obra do diabo”.

A multiplicação de movimentos neonazistas e o fanatismo religioso, dentro e fora dos governos, exige da sociedade uma atenção redobrada. Hitler e seus seguidores, assim como Mussolini, Franco, Stálin e Mao Tsé Tung – para citar apenas os mais famosos – já inscreveram seus nomes na história universal da infâmia. A população dos seus países pagou em sangue o preço da displicência. Não nos esqueçamos que o preço da liberdade é a eterna vigilância.

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