Estava num shopping, em Porto Alegre, quando me deparei com o João e a esposa dele, a Alice. Fomos colegas na faculdade, mas já fazia tempo que não nos víamos. Quando ele me reconheceu – o que não é difícil – veio imediatamente me cumprimentar. Depois de uma rápida troca de palavras e gentilezas, decidimos almoçar juntos para colocar o papo em dia. O João se formou em Jornalismo, mas como não encontrou trabalho na área, migrou para o Marketing e enriqueceu. Nestes tempos em que imagem é tudo, fácil compreender que construir realidades pague mais do que descrever as que já existem.
A conversa fluía descontraída. Nos tempos de Unisinos, éramos bons amigos. Descobri que o João e a Alice moram num apartamento no Moinhos de Vento e viajam com frequência. O último passeio foi para Montevideo e, ao ver as fotos, identifiquei o Gustavo. O filho deles era guri quando estudamos juntos e agora tem 16 anos. Foi quando perguntei sobre ele que a animação do reencontro deu lugar a um clima mais pesado e tenso. Percebi e fiquei na minha. Terminamos de almoçar e a Alice sugeriu que a gente continuasse conversando enquanto ela batia pernas atrás de uma roupa.
Ela se afastou alguns metros e o João se abriu. É que o Gustavo estava, digamos assim, dando “dor de cabeça” aos pais. No auge da adolescência, ele arrumou uma namoradinha e resolveu fazer o que muitos adolescentes andam fazendo. Levou a menina para casa numa tarde em que os pais não estavam e filmou a transa. Ao melhor estilo “não adianta beijar a Gisele Bündchen se ninguém ficar sabendo”, enviou as imagens aos amigos pelo whats app. Em dois dias, a escola toda sabia e a menina virou motivo de chacota. Enquanto o Gustavo posava de “garanhão”, ela era a “piriguete”.
Quando a família da garota descobriu, armou um escândalo, fez denúncia ao Conselho Tutelar e, naquela semana, o João e a Alice seriam ouvidos pelas autoridades. O guri foi suspenso da escola e a menina não parava de chorar. Meu amigo estava preocupado e chateado ao mesmo tempo. Sabia que a responsabilidade era toda dele e da esposa, que nunca tiveram muito tempo para o Gustavo. “Nunca falei com ele sobre sexo”, lamentou o João, admitindo um erro grave. Também não se preocupara em explicar que as mulheres não são objetos de satisfação sexual e que expor a intimidade para se autopromover é um comportamento rasteiro inaceitável. Havia remorso naquela fala.
Eu não quis dizer, mas era um pouco tarde. A situação estava posta e nada que se fizesse mudaria isso. O jeito era amparar a menina e agir para que não se repetisse. A conversa terminou com a volta da Alice, carregando uma sacola da Levis. Antes de nos despedirmos, desejei-lhes sorte.
Não sei como a história terminou porque não quis dar uma de metido, mas lembrei do caso esta semana, quando me deparei com uma notícia interessante. Na Dinamarca, desde 1993, as crianças têm aulas obrigatórias de empatia – a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa – e são desestimuladas à competição. Diferente do sistema de ensino de grande parte do mundo, lá se compreendeu que muito mais importante do que sermos melhores que o outro, é estarmos bem com nós mesmos. Não quer dizer que situações como as protagonizadas por Gustavo não ocorram, mas as chances são menores porque a gurizada sabe que é errado.
Sei que muitas escolas brasileiras têm essa preocupação, mas um abismo nos separa dos países nórdicos. Talvez a gente não possa esperar algo assim das nossas instituições de ensino no curto prazo, mas grande parte desse trabalho pode e deve ser feito pelos pais, irmãos mais velhos, avós, tios e dindos. O João e a Alice falharam com o Gustavo, mas os erros deles podem servir de alerta a muitas outras famílias.

* Os nomes que constam neste texto foram trocados

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