Eu adoro História. Sempre que tenho algum tempo livre, procuro ler, assistir a filmes e a documentários que abordem os mais variados temas do passado. Na minha lista de interesses, a Idade Média ocupa o primeiro lugar, seguida das grandes guerras. Nem sei de onde vem esse gosto, já que demorei a entender que a vida é cíclica e que, mais cedo ou mais tarde, tudo se repete numa espiral infinita.
Desde criança, as manifestações nazistas da Alemanha me impressionam. A cadência da marcha, a sincronia dos passos, o fervor com que levantavam o braço direito e saudavam seu führer com o “heil Hitler” pronunciado a plenos pulmões me hipnotizam até hoje. Aliás, também fizeram isso com os alemães por mais de dez anos. Um povo culto, inteligente e de raízes profundas sucumbiu ao discurso raso de um líder que prometia não só reconstruir o país destruído pela 1ª Guerra como torná-lo a maior nação do mundo. Ao som de “As Valquírias”, de Richard Wagner, tudo parecia possível.
Muita gente acha que estas manifestações ficaram restritas à Alemanha e à Itália, onde Benito Mussolini fazia uma pregação semelhante e jurava que ia devolver aos seus cidadãos a glória que havia sido o Império Romano. Não mesmo. Na primeira metade do século XX, muitos países viveram movimentos desta natureza, incluindo o Brasil, onde o Integralismo, sob o comando do jornalista Plínio Salgado, pregava “Deus, pátria e família” como a verdadeira salvação.
Existem diversos registros fotográficos das ações do grupo, que chegou a ter quase 1 milhão de associados. Centenas de jovens se reuniam em ambientes públicos e, usando camisas verdes, marchavam pelas ruas, muitas vezes promovendo desordens e espancando desafetos. Os livros de História definem o Integralismo como um movimento nacionalista, autoritário, tradicionalista e fundado em preceitos religiosos. Eram ferrenhos opositores do liberalismo, do anarquismo e do comunismo. Contra estes últimos, ocorreram vários conflitos de rua. Os principais símbolos do Integralismo eram a letra grega ∑, o sigma, que na matemática significa a soma dos infinitamente pequenos; e o cumprimento com o braço levantado para o alto, utilizando a expressão “anauê”, palavra de origem tupi que significa “você é meu irmão”.
As desordens e as tentativas de tomada do peder pelos manifestantes levaram à proibição do movimento no governo Vargas, à prisão de alguns líderes e à fuga de outros. Mesmo dispersos, muitos militantes seguiram na vida pública, infiltrados em entidades religiosas, partidos políticos e ONGs, onde os netos daqueles pioneiros ainda procuram impor sua visão distorcida da vida e do mundo.
Esta semana, voltamos a falar deles como suspeitos pelo ataque com coquetéis Molotov à sede da produtora do humorístico Porta dos Fundos. Gregório Duvivier, Fábio Porchart e seus associados sugeriram que Jesus era gay em seu especial de fim de ano na Netflix, o que irritou muita gente, incluindo líderes religiosos conservadores. Por mais que a gente não concorde com a sátira, apelar para a violência é inaceitável.
O fascismo e suas variações levaram vários países à ruína e não se pode permitir que este ovo de serpente seja chocado livremente embaixo dos nossos olhos. É preciso esclarecer este crime e punir os culpados pelos ataques. E se alguém verdadeiramente se sentiu ofendido pelas piadas ruins de “A primeira tentação de Cristo”, que busque na Justiça o remédio prescrito pela Democracia.
Enfim, que, em 2020, possamos exercitar a lição de tolerância do filósofo francês Voltaire, outro personagem histórico de que gosto muito: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”.

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