Helena Sushitskaya por Pixabay

Não acho que animais de estimação devam ser tratados como crianças. Sou contra as festinhas de aniversário com bolo e guloseimas para os pets. Também não investiria fortunas em tratamentos de beleza para os peludos ou gastaria pequenas fábulas em ensaios fotográficos para publicar as imagens “bonitineas” nas redes sociais. Dito isso, pode parecer que não gosto de animais. Vamos com calma. Eu curto cães e gatos, mas por aquilo que eles são: companheiros de jornada e não substitutos para filhos, familiares e amigos. Se bem que, às vezes, eles cumprem esse papel muito bem, melhor do que certos bípedes consanguíneos.

Não há como negar que a vida moderna, marcada pelas solidões barulhentas, provocou uma reaproximação entre o homem e seus “melhores amigos”. Primeiro, eles eram guardas e companheiros de caçadas. Hoje são parte da família, confidentes-mudos de quem precisa de companhia e não tem. Dividem a cama com seus donos, comem as melhores rações, fazem exercícios supervisionados, têm dieta própria e até plano de saúde. Há empresas especializadas em funerais que cobram caro para entregá-los à terra e guiá-los à eternidade.

E daí? Daí que, enquanto bajulamos nossos cães e gatos, existe muita gente passando necessidade. Não vejo problema em mimar a cadelinha de estimação ou em dividir o bife com o gato preguiçoso e boa-praça, mas me incomoda o fato de não termos a mesma preocupação com as nossas crianças, por exemplo. A desigualdade que reina em nosso país faz com que milhares de meninas e meninos com menos de dez anos durmam com fome todos os dias. Sem falar naquelas que, para terem o que comer, passam os dias nos cruzamentos vendendo quinquilharias ou o próprio corpo, quando deveriam estar na escola.

Há poucos dias, nas redes sociais, testemunhei uma grande mobilização na busca por um cachorrinho perdido. O animal era importante para os seus donos, que ofereceram um carro usado como prêmio a quem o encontrasse. Foi em Taubaté, interior de São Paulo. Felizmente, tudo terminou bem. O cão foi localizado e a pessoa que o achou negou-se a receber o prêmio, um antigo Passat, avaliado em cerca de R$ 5 mil, porque entendeu que estava fazendo apenas a sua obrigação. Honestidade, enfim!

Na mesma rede, semana passada, vi a correria em torno da busca a uma criança desaparecida. Igualmente, houve uma onda de solidariedade e muita gente compartilhou as imagens. A diferença, porém, é que neste caso o apoio veio acompanhado de críticas e julgamentos precipitados. “Deve ter fugido com um namoradinho”, escreveu um internauta. “Que mãe irresponsável”, condenou outro. “Logo vão achar na cama de alguém”, sentenciou mais um. Não houve oferta de recompensa e, dias depois, a garota, de apenas sete anos, voltou para casa. Havia se refugiado embaixo de um viaduto em Porto Alegre porque estava cansada das agressões do padrasto.

Não espero que as pessoas “troquem seu cachorro por uma criança pobre”, como sugere o rock de Eduardo Dusek, lá dos anos 80. Tampouco, que passem a gastar menos com banho, tosa e outros salamaleques. O que eu defendo é um olhar mais humano sobre tudo isso. Cuidar dos animais, mais ainda daqueles que vagam pelas ruas, é importante e necessário. Tratar bem aqueles que dividem a casa conosco, também. Mas não podemos inverter a ordem de prioridades.

Nessa campanha eleitoral, ouvi de muitos candidatos a prefeito e à Câmara a promessa de que trabalharão pela “causa animal”. Fico feliz que estejam preocupados com o tema. Até porque tem tudo a ver com saúde pública. Infelizmente, encontrei muito pouco sobre a “causa humana”. Pessoas muito carentes, crianças em situação de risco e idosos abandonados parecem ter, neste “mundo moderno”, menos espaço nos discursos do que os pets. Talvez porque dêem mais trabalho e seu amor, embora verdadeiro, não seja incondicional.

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