Num país em que grande parte da população se considera religiosa, como no Brasil, é comum as pessoas fazerem “promessas” para alcançar uma graça. Na hora de buscar emprego, curar-se de uma enfermidade ou se ver livre de algum tormento, a barganha com os santos e o próprio criador é quase um hábito em muitas famílias. Nas trocas, vale um sacrifício físico ou uma boa ação, beneficiando alguém também em dificuldades ou instituições com atividades na área social, como asilos e hospitais.
Honestamente, no acredito que Deus ou seus “ajudantes” podem ser manipulados ou seduzidos dessa forma, mas respeito as crenças e a fé dos outros. Se não prejudica, mal não faz! Da mesma forma, procuro não criticar aqueles que retiram uma décima parte daquilo que ganham e doam para a denominação religiosa que frequentam. Contudo, tenho algumas ressalvas a esta prática que, na minha cristã e modesta opinião, só é aceitável quando esses valores são canalizados para custear ações e programas que retornem em algum tipo de benefício para a população. E nem sempre é o que acontece.
Semana passada, a 4ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul condenou uma igreja evangélica a devolver uma doação de R$ 19,8 mil. O fato aconteceu com um casal de idosos em Três Lagoas, no interior do Estado. Eles resolveram “pagar” por um milagre, que não foi revelado. Em 2016, o homem vendeu seu carro por R$ 18 mil e ainda somou sua aposentadoria integral de R$ 1.980,00. No mesmo ano, doou tudo para a instituição religiosa.
A graça esperada pelo casal, porém, não aconteceu e eles tentaram reaver o dinheiro. A igreja negou e a situação foi parar na Justiça. Além da devolução, os aposentados pediram uma indenização por danos morais, por se sentirem enganados. No processo, alegaram que foram vítimas de uma “lavagem cerebral”. A Justiça mandou restituir o valor “investido” na promessa, mas o adicional pelo abalo moral acabou negado.
Na Bíblia, no livro de Mateus, há uma frase atribuída a Jesus que deveria ser uma lição de humildade para todas as igrejas. “…onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Significa que não há necessidade de construir templos gigantescos e ricamente ornamentados para garantir a presença Dele. Tampouco, que a fé e os resultados dela dependem de qualquer pagamento.
Obviamente, todas as igrejas possuem despesas, como o pagamento dos padres e dos pastores, assim como dos meios para que eles possam chegar aos fiéis. De outro lado, muitas delas fundaram e mantêm hospitais, asilos e escolas, que, quando não são totalmente gratuitos, possuem custos muito superiores ao que arrecadam com a venda de seus serviços. Então, se o fiel quiser ajudar a manter estas instituições, que faça a doação ou que pague – na medida do possível – o dízimo.
Já houve um tempo em que a Igreja Católica funcionou como um gigantesco bazar, vendendo relíquias, como ossos de santos e pedaços da cruz, e trocando moedas pela absolvição de qualquer pecado. Aos mais abastados, era possível até comprar um lote no céu. Felizmente, práticas do passado, pelas quais os próprios Papas já se desculparam muitas vezes. Contudo, mais de 500 anos depois, parece que alguns falsos “sacerdotes” continuam encontrando pessoas dispostas a pagar por algo que só a fé pode garantir. De ambos os lados, não há ingenuidade nisso.

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