Desde criança, meu sistema respiratório não é lá essas coisas. Hoje lido razoavelmente bem com a sinusite e a rinite, entre outras “ites” que teimam em me perseguir vida afora, mas nem sempre foi assim. Lá na primeira infância, bastava um ventinho qualquer e eu tinha crises fortes de amigdalite. A infecção vinha rápida e assustadora, provocando febrões de até 40 graus que, mais de uma vez, fizeram meus pais me levar às pressas ao médico. Inclusive no meio da madrugada. Sim, eu dei trabalho para eles.

Numa destas muitas visitas ao doutor, ele prescreveu um remédio dos infernos chamado Bactrim. Era vendido em líquido, num vidrinho marrom, e podia ser adquirido – acreditem – em dois sabores: morango e banana. O primeiro, porém, raramente estava disponível. A intenção do fabricante certamente era mascarar o gosto horrível do bactericida com a adição de açúcar e alguma substância que tentava, sem muito sucesso, dar-lhe o gosto de uma dessas frutas. Verdade seja dita, o troço funcionava. Bastava uma dose ou duas e os sintomas cediam. Adeus calafrios, suador e dores.

O problema mesmo era tomar. Fiz muitas “cenas”, briguei e chorei para escapar daquele gole terrível. Às vezes, até vomitava. Mas não tinha jeito. Afinal, “o que arde cura e o que aperta, segura”. O Bactrim era um excelente remédio. Com o tempo, as amigdalites desapareceram. Não sei se alguma vez agradeci aos meus pais por terem insistido. Se não, faço-o agora. Valeu!
Eu lembrei do Bactrim esta semana quando, na redação, uma colega lanchava e me ofereceu uma banana. Educadamente, agradeci porque o remédio destruiu minha relação com a nossa fruta-símbolo. Eu gostava, juro, mas depois que tomei todos aqueles litros de medicamentos disfarçados em batida de banana, comê-las requer grande esforço. Tudo bem numa salada de frutas, quando o gosto se mistura ao do melão, da uva, do mamão e do morango, mas pura, assim, “solita”, é puxado.

Tudo na vida é assim. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. O Bactrim me devolveu a saúde, mas tirou a banana da minha dieta. Foi uma troca vantajosa e é esta reflexão que precisamos fazer quando algo aparentemente ruim acontece. Tomemos como exemplo a pandemia do novo coronavírus, que tirou o brilho de 2020, desintegrando empregos e levando consigo a vida de milhões de pessoas. Que lições ficarão deste momento tão difícil?

O isolamento social, tão criticado por muitos, deu tempo para o governo equipar os hospitais para que menos gente morresse na busca por atendimento. Ficar em casa agravou outros problemas de saúde, especialmente a depressão, mas também propiciou mais tempo de convívio entre as famílias. Houve quem redescobrisse o amor, assim com muitos tiveram a certeza de que fizeram a escolha errada quando decidiram dividir a vida com alguém. Não estará, também aí, disfarçada de dor, a cura para algumas doenças da alma?

Quando tudo isso começou, lá em março, escrevi aqui, nesse mesmo espaço, que sairíamos mais fortes desta situação. Sete meses se passaram desde então e agora tenho a certeza de que estava certo. Podemos até questionar a duração do confinamento, mas, sem ele, a quantidade de vítimas teria sido muito maior, sobretudo entre os mais pobres, que podem até estar desempregados, mas seguem entre nós, em condições de lutar. Quase 160 mil brasileiros não têm esta chance. A pandemia reduziu salários e expectativas, mas despertou forças que muitos nem imaginavam ter.

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