O sindicalista Luiz Kayser, falecido esta semana aos 90 anos, era, ele próprio, uma verdadeira aula de História. Como jornalista, tive a chance de entrevistá-lo algumas vezes. Em geral, as pautas giravam em torno do seu papel na criação do Sindicato dos Metalúrgicos, da construção do Taninão e da perseguição que sofreu durante a Ditadura Militar, nos anos 60 e 70. Contudo, no fim, sempre sobrava tempo para um papo mais solto e, numa dessas oportunidades, ele me contou algumas situações curiosas que viveu na adolescência. Peço perdão aos familiares se tropeço nos detalhes, mas esta memória precisa ser dividida.

Kayser morava com a família na localidade de São José do Maratá. Em 1938, quando chegou a hora de ser alfabetizado, não havia escola regular na comunidade e a única opção eram aulas ministradas no idioma alemão. Três anos depois, quando a localidade finalmente ganhou seu primeiro educandário, as lições passaram a ser oferecidas em Português à tarde e, na parte da manhã, continuavam na língua de Goethe, uma situação comum nas chamadas “colônias” formadas por descendentes de imigrantes. Aquilo não gerava conflitos, pois apenas uma família nas redondezas era de “brasileiros”, os chamados “ploa”.
A vida seguia calma como o ruminar dos bovinos e alegre como o cantar das aves até 1942. Naquele ano, o Brasil ingressou na Segunda Guerra Mundial ao lado dos americanos, contra a Alemanha, a Itália e o Japão. Um dos efeitos foi a proibição do idioma alemão. Quem se comunicasse na língua dos imigrantes, de forma falada ou escrita, era preso. No interior, onde as comunidades mal conheciam a língua portuguesa, o impacto da nova lei foi gigantesco. Sem falar nas hostilidades.

O pai do seu Luiz trabalhava num curtume e cabia ao menino levar-lhe o almoço todos os dias. No trajeto, quando passava pela casa dos “brasileiros”, eles o chamavam de “alemão de merda”. Eram dois garotos e, mesmo em desvantagem, Kayser resolveu enfrentá-los. Como era de se esperar, levou a pior. A dupla pegou a tigela com o almoço, jogou fora e defecou dentro. O garoto teve de voltar para casa, onde a mãe fez nova “marmita” e o acompanhou até o curtume.

Em outro momento, por causa de uma denúncia sem fundamento, a casa dos Kayser foi invadida por dois soldados. Reviraram tudo e, com espadas, cortaram até os colchões de palha de milho em busca de armas e radiotransmissores. Não encontraram nada, mas deixaram um rastro de destruição. Até a prateleira com os alimentos foi derrubada, provocando grandes perdas.

A perseguição aos alemães naquele período turbulento era sistemática. Certo dia, durante um jogo de bocha, o pai de Luiz e os amigos trocaram algumas palavras na língua proibida. Era domingo e, na manhã seguinte, ele foi preso. Os soldados colocaram uma corda ao redor da barriga do prisioneiro e o conduziram, como um boi ou uma vaca, a pé, até a delegacia de Polícia de Montenegro. A caminhada foi de mais de 10 quilômetros. Uma revoltante arbitrariedade, já que houve apenas uma detenção e os envolvidos eram mais de dez. Foi necessária a intervenção de um advogado para garantir a soltura.

Infelizmente, descobri um pouco tarde a importância de conversar com os idosos e de registrar suas histórias. Eles gostam de contá-las e raramente encontram alguém disposto a ouvi-las. Uma pena e um grande desperdício, já que todas elas vêm acompanhadas de importantes lições. Estas, do seu Luiz, ensinam que as dificuldades e as perseguições não definem as pessoas e, sim, a forma como lidamos e reagimos a elas. Ao invés de buscar o caminho da opressão e repetir as violências que sofreu, ele fez o contrário, ajudando a organizar os trabalhadores e promovendo consciência social. Continuou sendo um alvo, mas nunca abriu mão de suas convicções. Obrigado por isso!

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