A nova onda de conflitos raciais nos Estados Unidos exige uma reflexão sobre o quanto, em nosso dia a dia, praticamos ou simplesmente fechamos os olhos para o preconceito contra os negros. Os protestos, que iniciaram de maneira pacífica, mas rapidamente evoluíram para a violência e os saques, visam chamar a atenção da sociedade americana para a forma desigual com que a Polícia trata negros e brancos. O afroamericano George Floyd, de 40 anos, perdeu a vida em Mineápolis depois de ser acusado pelo funcionário de uma loja de conveniências de usar um cartão de crédito falso para fazer suas compras.

O que se vê depois, filmado pelas câmeras de diversos celulares, é Floyd já algemado, no chão, com um agente ajoelhado sobre o seu pescoço. O suposto criminoso ficou sete minutos nesta situação, pedindo socorro e dizendo que não conseguia respirar.
A cena é desesperadora, a ponto de várias pessoas pedirem que o policial alivie o peso, mas os apelos são solenemente ignorados. Por fim, Floyd é colocado sobre uma maca, mas já é tarde demais. Em sua defesa, os quatro oficiais que participaram da ação alegaram que o suspeito os desacatou ao ser abordado. Nenhum cartão ou recibo de compra foi encontrado com ele.

Num país onde, até os anos 60, negros e brancos não podiam dividir as mesmas calçadas, escolas e bares, as tensões são ainda mais fortes do que no Brasil. Mas engana-se quem acredita que a praga do racismo não está presente – e de forma muito viva – em nossa sociedade. Ela se manifesta também no tratamento diferenciado da Polícia de alguns estados, assim como na presença menor de afrodescendentes em funções de comando nas empresas, no pequeno número de graduandos, mestres e doutores “de cor” nas universidades e na falta deles nos parlamentos e nos Executivos. A tal ponto de as manchetes dos jornais ainda saudarem estas conquistas como feitos históricos quando eventualmente se materializam.

A pergunta que devemos nos fazer é o que nós, brancos, temos a ver com isso e como devemos agir para mudar esta realidade. Um bom começo é reconhecer que os descendentes de africanos que vivem ao nosso lado merecem o mesmo respeito com que tratamos nossos vizinhos de pele e olhos claros. Ajudaria bastante se cada um pensasse um pouco antes de fazer piadas que apresentam o negro como marginal ou intelectualmente inferior. E que tal se paramos de considerar suas manifestações culturais e religiosas menos valiosas do que o tradicionalismo e o canto coral, por exemplo?

Ao perpetuar o estereótipo de que o negro é menos capaz do que uma pessoa de qualquer outra etnia, todos somos culpados pela segregação, ainda que, na frente dos outros, a gente bata no peito e garanta que não é racista. No fundo, todos somos, mas alguns já perceberam que estão errados e se esforçam para mudar suas atitudes. Não é fácil quando, a vida toda, somos cercados por gente que não encara o preconceito como algo realmente nocivo. Vale o mesmo em relação a deficientes, idosos, judeus, índios, homossexuais e todos aqueles que são ou pensam diferente.

No meio de todos estes protestos e manifestações violentas, li uma frase que se adapta a esta reflexão como uma luva: “não é preciso ser negro para combater o racismo”. Acredito que este é o caminho. A mudança começa em cada um, estudando o assunto, buscando o conhecimento e pensando mais antes de falar. Pode não ser suficiente para mudar a realidade com a velocidade que a situação requer, mas vai garantir que aquela cena do policial ajoelhado sobre o pescoço de um suspeito negro não se repetirá nunca mais. Nem lá e nem aqui.

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