Conheço muitos pais e acredito que, salvo raras exceções, eles só querem o bem dos filhos. Nem sempre acertam nos métodos, é verdade, mas tentam fazer o melhor. Até mesmo quando exageram num castigo, geralmente estão reproduzindo um comportamento dos seus próprios pais. Por outro lado, não sou cego e sei que há também os irresponsáveis e os violentos, da mesma forma que existem os fantásticos, aqueles que não relutam em enfrentar qualquer perigo para ver a “cria” sorrir.
Hoje quero falar desse segundo grupo, a partir de uma história que vem lá do Oriente Médio, mais precisamente da Síria, que está em guerra civil há quase dez anos. O conflito iniciou com protestos por mais liberdade política, repelidos com violência pelo regime de Bashar Al-Assad. Com o tempo, a guerra se internacionalizou e, hoje, a nação que já foi rica é um grande amontoado de escombros. Os enfrentamentos entre governo e rebeldes levaram à morte em torno de 380 mil pessoas.
Em Idlib, uma província que está sob intenso bombardeio, um pai tenta aliviar o estresse criando uma brincadeira para a filha de apenas três anos. Abdullah Mohammad disse à menina que a queda das bombas soa como fogos de artifício e que, por isso, não há nada a temer. Inocentemente, ao ouvir o barulho de uma explosão, a menina começa a rir. As gargalhadas da garotinha são contagiantes e mostram que crianças, não importa onde e em que circunstâncias, só querem se sentir seguras para serem… crianças. O vídeo está na internet. Se não se emocionar, provavelmente há algo de errado com você.
Quando vi as cenas, lembrei imediatamente de outra história – esta fictícia – mas não menos pungente. O filme “A vida é bela”, que não por acaso conquistou três estatuetas na cerimônia do Oscar de 1999, conta a historia do italiano Guido e de seu filho Josué. Durante a 2ª Guerra Mundial, eles são mandados para um campo de concentração. O pai, mesmo sabendo que ambos iriam morrer, faz de tudo para que a infância do garoto não seja assassinada.
Pai e filho ficam juntos na “fábrica da morte”, mas, durante todo o tempo de prisão, de forma engenhosa e com o auxílio dos outros prisioneiros, convence o garoto de que estão num campo de férias, participando de um longo e emocionante jogo. Guido consegue transformar cada momento de humilhação, repressão e violência em hábeis situações do suposto jogo, em que o garoto vai participando e se divertindo. Finalmente, já perto do fim, ele morre para salvar o filho, que reencontra a mãe no dia da libertação.
Abdullah e Guido são heróis da vida real e do cinema e, como eles, existem muitos outros por aí. Não buscam reconhecimento por seus feitos porque, ao se tornarem pais, simplesmente compreenderam que existe uma vida mais importante que a sua para defender. O curioso é que os senhores da guerra, na Síria ou em qualquer outro lugar, provavelmente também são pais e, mesmo assim, não se importam em escravizar e em matar outras crianças.
Um relatório divulgado pela ONG Save the Children revelou que uma em cada cinco crianças vive em áreas conflagradas. Esse número é o maior registrado em 20 anos. Os dados correspondem a 2017. Ao todo, 420 milhões de pequenos viviam em zonas de conflito. Afeganistão, Iêmen, Sudão do Sul, República Centro-Africana, República Democrática do Congo (RDC), Síria, Iraque, Mali, Nigéria e Somália são os dez países com mais inocentes afetados por conflitos.
Metade das crianças sírias cresceu em meio à guerra. No Iêmen, mais de 85.000 morreram de fome. Muitas outras foram mutiladas, recrutadas como soldados e vítimas de abusos sexuais. Que espécie de adultos nós somos para permitir tamanhas atrocidades? Pelo menos fica o exemplo daquele pai lá na Síria, provando que ainda resta uma esperança para a humanidade. Obrigado! Shukran, Abdullah!

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