Desde que o Funk Ostentação foi parido, há pouco mais de dez anos, o novo estilo musical virou febre entre a garotada. Primeiro nas favelas e depois no asfalto, hoje ele está em todos os lugares, incluindo as festas de 15 anos dos filhos de gente muito bem remunerada. Até em alguns bailes de gala – suprema heresia – na finaleira, o pessoal desce até o chão. Não há nenhum problema nisso e aqueles que fazem cara de nojo diante de fenômeno devem lembrar que aconteceu o mesmo com o rock, o samba, o pagode, a lambada e tantos outros ritmos consagrados.
Porém, como o grande público consumidor do estilo é adolescente, devemos concordar que algumas letras merecem revisão. Muitos artistas pregam a violência, o consumo de drogas e fazem apologia ao estupro. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, menores de 18 anos devem ser protegidos desse tipo de conteúdo, mas a proibição é letra morta diante da falta de fiscais e da condescendência dos pais. Assim como o veto ao álcool é solenemente ignorado em muitas famílias, ninguém desliga o equipamento quando o MC chama as mulheres de “safadas” e pede que elas sentem no seu… vocês podem imaginar.
Se, por um lado, parece que caminhamos alegremente em direção ao Apocalipse, também é verdade que o público anda mais exigente com os artistas que curte. Um exemplo é Guilherme Kauê Castanheira Alves, o MC Gui, um paulistano de 21 anos que integra a constelação dos principais funkeiros do Brasil. Esta semana, ele virou notícia depois de debochar de uma menina com câncer. “Mano, olha isso!”, diz o cantor ao filmar a criança num trem da Disney, nos EUA. Ele e os amigos riem. Triste, a garotinha ajeita a peruca. O episódio foi filmado e compartilhado pelo músico no Instagram.
A chuva de críticas ao comportamento do artista foi monumental e ele acabou pedindo desculpas. Não bastou. Alguns contratantes cancelaram shows pelo país e lojas deixaram de vender produtos licenciados pelo funkeiro. Doeu no bolso. Em sua defesa, Guilherme disse que achou a menina parecida com a personagem de uma animação e pensou que se tratava de uma cossplay (pessoa que se veste como seu ídolo e o imita nos gestos e no modo de agir). Depois de reclamar que a internet está “muito chata”, o MC arrematou com uma declaração clássica entre os que tomam puxões de orelha do público: “Só Deus sabe o que vai no meu coração”.
MC Gui não é o primeiro cantor do segmento que derrapa no comportamento. Em 2016, outro famoso, o MC Biel, quase teve a carreira pulverizada ao assediar uma jornalista. Ele chamou a profissional de “gostosinha” e também afirmou que a “quebraria no meio”. No começo deste ano, o MC Guimê foi preso por porte de drogas e também usou o todo-poderoso em sua defesa, dizendo que só Ele poderia julgá-lo. Perdoa-o, senhor, eles não sabem o que dizem. Até a rebolativa Anitta se envolveu em uma “treta” ao dizer, em 2018, que não convidava “gente hanseníase” para seu programa no canal Multishow. Depois, reconheceu o descarrilamento médico-gramatical e explicou que queria se referir a pessoas das quais tem “ranço” e não aos leprosos.
Mas de tudo isso, uma declaração do MC Gui faz sentido. A internet anda mesmo chata. A plataforma que catapultou estes garotos pobres da favela para suas mansões, também é implacável quando eles escorregam e agem em desacordo com aquilo que os fãs esperam deles. Ainda não a ponto de varrê-los da cena musical, mas isso é apenas uma questão de tempo. Oremos!

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