Voltava para casa quando, pela janela do ônibus, uma cena chamou minha atenção. Do outro lado da rua, na calçada, um homem movia-se rapidamente. Sorrateiro, meio agachado, como se alguém estivesse a lhe observar os atos.
Logo à sua frente, deitado ao chão, outro homem, de aparência idosa. Possivelmente, um morador de rua. O matreiro chegou mais perto do que dormia. Mantendo uma distância aparentemente segura, cutucou-o com um graveto. Diante da ausência de movimentos, em um salto, meteu-lhe a mão no bolso da calça. Tirou-lhe algo.
Quando trocou de mão o produto do seu furto, percebi tratar-se de algumas moedas.
Mal conferiu-as, “passou a mão” no segundo bolso. Nada encontrando, saiu em disparada.
Senti um profundo incômodo. Sequer era possível, abrir a janela e gritar algo. Atônito e impotente, frente à cena que já ficava para trás, mergulhei em pensamentos.
Primeiramente, sobre humanidade. Neste caso, melhor definindo, a “falta de”. Na sequência, a respeito da cidade e o lugar que nela ocupamos. Um passo além, refleti acerca do social, sobre leis e micropolítica.
Reflexões que levaram a várias perguntas. Afinal, a cena não tratava apenas de algo que se passava do lado de fora. Menos ainda, uma exibição do cotidiano para quem passa.
Naquele momento, eu não era apenas “este que olha pela janela”. Ali, havia uma representação psíquica do todo que somos e habitamos. Do que nos permitimos(?)! Afinal, no decorrer da vida, apenas trocamos os papéis. Ora “de um lado das janelas da vida”, ora do outro.
Naquele momento, havia uma parte que dorme (?);embriagada (?); morta (?). A parte sorrateira (?); impiedosa (?); faminta (?); necessitada (?). Havia outra parte, ainda empática (?); inerte (?); delirante (?).
Quem sabe (?) que se arrisque afirmar.
Só há “outro lado da janela” por percebermos um “dentro” e um “fora”. Um mundo dissociado. Um Eu delirante de poder de Si.
Quantas vezes também, em sonho insensato frente à realidade, vamos nos deixando roubar?
Quantas vezes, embriagados do mundo particular, não percebemos que o nosso próprio sistema agoniza pela falta de atitude empática?
Quantas vezes já estivemos“mortos para a vida”, por deixar esquecidos bons sentimentos?
Uma freada brusca trouxe de volta a realidade (?).
Enquanto o ônibus reacelerava, dei-me conta que toda a cena não durou mais do que quinze segundos. Porém, fez concluir que é tempo suficiente para não perder a empatia frente à vida. E que não questionar-se também é uma forma de morrer.
Paz e bem!

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