Poucas coisas me despertam tanto a atenção quanto repetições.
Na semana que passou, pude perceber uma destas reproduções que a vida apresenta. De forma surpreendente, em um único dia, quatro amigos postaram em redes sociais, escreveram e comentaram sobre a mesma frase com a qual me deparei ao “correr os olhos” sobre um material antigo que estava organizando em meu consultório.
A frase dizia o seguinte: “Nascemos originais e morremos cópias.”. Esta frase faz parte da obra de Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia Analítica.
De acordo com a teoria de Jung, há uma tendência natural de nos diluirmos no coletivo. Somos parte de uma sociedade, com suas regras e costumes. Salvo raras exceções, acabamos por nos “dissolver” neste meio.
Mas o que garantiria nos mantermos fiéis ao que somos? Isto seria possível?
Em “Memórias, sonhos, reflexões”, Jung escreve o seguinte: “… pus-me a serviço da alma. Eu a amei e odiei, mas ela sempre foi minha maior riqueza. Devotar-me a ela foi à única possibilidade de suportar minha existência, vivendo-a como uma relativa totalidade. Hoje posso dizer que nunca me afastei de minhas experiências iniciais. Todos os meus trabalhos, tudo o que criei no plano do espírito provêm das fantasias e sonhos iniciais. Isso começou em 1912, há cerca de 50 anos. Tudo o que fiz posteriormente em minha vida está contido nessas fantasias preliminares, ainda que sob a forma de emoções e imagens.”
Jung fala de uma propriedade do psiquismo humano: a alma. Ela é o que temos de mais íntimo e pessoal. Manter-se fiel aos princípios da alma seria uma forma de não “perder-se” no que é próprio das coletividades. Ou seja, não tornar-se uma cópia do que é ditado pela sociedade.
Seria, mais ou menos, como imaginarmos um tronco de árvore que é moldado pelas mãos de um marceneiro. A cada pedaço não “aproveitado”, uma parte única e importante é deixada para trás. Jamais seremos completos se deixarmos “nossos pedaços” ao longo do caminho.
Logo, não haveria forma mais apropriada de contatar esta “alma” do que debruçar-se sobre a própria história. Seus detalhes, particularidades, repetições. Especialmente, o universo das imagens pessoais internas, reveladas pelo inconsciente.
A grande contribuição de Jung, sem dúvida, não foi mostrar um mapa da alma, mas revelar que é possível traçá-lo. E que cabe a cada ser empenhar-se nesta tarefa única e pessoal. A Psicologia Profunda, desenhada por Jung, oferece um despertar para o íntimo e essencial. Neles encontramos a fonte viva e inesgotável de essência à vida psíquica.

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