Há dias, ela sentia algo estranho. Uma sensação ruim em relação ao trajeto que fazia de casa até a escola.
Algumas vezes, sentia que iria envolver-se em um acidente. Outras, chegava a ver a imagem de um caminhão projetando-se diretamente para cima do seu carro. Noutras tantas, se via perdida em pensamentos que sempre culminavam com a morte.
Passou duas semanas preocupada. Alimentando o medo. Nervosa.
Os dias foram passando, nada aconteceu.
Revelou que estava cansada de dedicar tempo a pensamentos que nunca se realizavam.
Perguntei se era sobre intuição que estávamos falando. Ela disse que, caso fosse, não confiaria mais nela. Cogitava tomar remédios para a “acalmar os pensamentos”.
Carl Jung, identificou quatro funções psíquicas fundamentais nos seres humanos. O pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição. As duas primeiras seriam racionais. As duas últimas, irracionais. Ou seja, estas irracionais se dão de forma inconsciente. Necessitam ser “traduzidas”. Elas “forçam” que nos perguntemos: “O que vou fazer com isto?”.
Então, todos carregam estas funções. Cada qual, com um nível de desenvolvimento peculiar. Logo, minha paciente se via frente ao incômodo gerado por uma função inconsciente.
Há duas formas de lidarmos com a intuição.
A primeira é a mística. Ao entendê-la como “superpoder”, nos tornamos seus reféns. Ela aprisiona pela necessidade de sua interpretação. Quando assim entendida, pode ser nomeada de destino/deus/universo e, a estes, atribuídas as suas consequências.
A segunda, e que entendo ser totalmente diferente, é a psíquica. Esta, exige uma atitude de atenção e cuidado em relação aos fatos da vida. A percepção psíquica nos livra do aprisionamento à mística.
Temer a primeira é não sair de casa. É desviar o caminho. Respeitar a segunda é adquirir liberdade.
Há um enfrentamento necessário via consciência. Ser “sabedora” de um possível dano e enfrentá-lo, levou-a a dirigir com atenção. Ajudou-a a evitar as situações que, por ventura, desviassem sua atenção como: conversa, uso de celular, distração, excesso de velocidade.
Agora, ela vê sentido em aqueles pensamentos nunca terem se realizado. Seus temores foram se transformando em atitudes de cuidado. Não cedeu à mística, transformou-a em consciência.
Foi possível entender de que forma sua intuição surgia. Tornou-se aceitável compreender conscientemente os momentos em que se manifesta. Foi razoável fazer as pazes e seguir vivendo de forma digna com sua intuição sem entregar-se à medicação.
Paz e bem!

Deixe seu comentário