(F)ato 1: Ela sempre chegou pontualmente à sessão, exceto ontem. Depois de 15 minutos, entrou ofegante e sentou-se. Falou da quantidade de carros na rua, da dificuldade para estacionar, da estranha abundância de pessoas com pressa.
Por alguns segundos, aquietou-se. Mergulhou em pensamentos. Pediu-me um copo d’água. Enquanto levantei para servi-la, indagou: “Onde está o sagrado do Natal nisto tudo?”.
(F)ato 2: À noite, já em casa, fiquei sozinho,por quase uma hora, em frente à arvore de Natal. Para mim, sem dúvida, a mais bela que já tive.
Não abrimos mão do ritual de decorá-la em família.A mesma árvore, as mesmas luzes. Algumas novas bolinhas, caprichosamente produzidas pela minha esposa, dão um toque diferenciado à decoração deste ano. A alma da velha árvore está revigorada.
Enquanto símbolo,a árvore carrega vida, possibilidades, afeta. Mas é o rito que aproxima, aprofunda, dá sentido. O rito de ficar observando-a sempre me leva a lembrar de tantos outros Natais. Alegres ou tristes, sempre foram carregados de emoção. Mesmo quando parecia nem ser Natal. Na dança das luzes, minha preferência é pelos tons vermelho e verde. Não gosto do azul gelado e do amarelo que confere um tom ressecado ao pinheiro. A dança embaralhada e freneticamente rápida das cores, impõe uma certa agitação.
Foi neste momento que lembrei da indagação sobre “onde estaria o sagrado em meio a tanta agitação”. Então pude me dar conta que é justamente aí que o Natal se faz sagrado: na ALMA. E a alma não é uma forma de pensar ou um simples sinônimo para espírito. Alma se trata da porção sagrada no humano e da parte humana no sagrado. Sem o humano, o sagrado perde o sentido. Sem o sagrado, o humano se perde na falta de sentido. A alma está lá, em cada fato da vida, em cada reflexão, em cada ato. Ela move e une humano e sagrado.
A pressa, a confusão e a individualidade são da essência deste tempo. Logo, estão naturalizadas. E é desta naturalização aprisionante que alma visa libertar. Não basta parar. Ainda falta refletir e deixar-se tocar. Movimento e consciência dos (f)atos.
Entre a realidade (que pode ser comprovada nos fatos) e a manifestação da vontade (contida nos atos) é que a vida vai se mostrando. O ato leva ao fato. É preciso intenção e movimento(ato) na direção à qual se quer chegar. Caso contrário, os fatos sempre nos mostrarão o quão distante estamos da realidade que meramente percebemos, da forma que gostaríamos de viver, daquilo que preferiríamos estar sentindo.
A vida se coloca sempre entre o ato e o fato: na ALMA.
Paz e bem !

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