Uma das propriedades de uma fábula é trazer um ensinamento, uma “moral da história”. Para cada pessoa, conforme seu momento de vida, sua forma de perceber as coisas, partindo da mesma fábula, tira suas próprias conclusões. É natural associarmos o conteúdo das fábulas às experiências vivenciadas e fatos cotidianos.
Nos últimos dias, percebi algo às avessas. Um acontecimento me fez recordar, diversas vezes,uma antiga fábula.
Ela conta que, todas as manhãs, em uma fazenda, o fazendeiro se dirigia ao galinheiro e abria o portão, para que os habitantes saíssem a ciscar livremente pela propriedade. Algum tempo depois, um galo se depara com uma pedra raríssima. Ao olhar para aquele diamante de valor inestimável, diz: “Antes ter encontrado um único grão de milho, a centenas de brilhantes iguais a este”.
O fato que fez lembrar desta fábula se relaciona ao “acidente” da mineradora Vale.
Muito se fala em valor. O valor que a empresa perdeu, o valor das ações, o valor de indenizações… Algo que causou muito incômodo foi a frequência (incomum) de comentários sobre a possibilidade de “lucrar financeiramente” com este “acidente”. Tanto por parte de quem opera no mercado financeiro como da empresa. Esta, ao decidir fechar algumas de suas unidades, tem o “valor” do seu produto elevado no mercado internacional.
No entanto, pouco se fala sobre o valor que esta empresa dá às vidas dos funcionários e ao meio ambiente. Até a última quarta-feira, 30, os números oficiais indicavam noventa e nove vidas humanas ceifadas. Os números oficiais jamais darão conta das vidas dilaceradas de familiares e amigos, das comunidades atingidas e das vidas não humanas. Estas, não menos importantes.
Tudo isto em nome do “valor”. No entanto, quando o valor está isolado de atributos como: importância, estima, respeito, zelo, consideração (a lista é interminável), a única coisa que resta é o “preço”. Algo que só o personagem da fábula parece (verdadeiramente) entender. Por mais precioso que seja um diamante, ele só terá valor dentro de um contexto. E para o nosso amiguinho, ele nada significou.
Podemos ponderar: “Mas que galo ignorante! Ele poderia ter trocado o diamante por um estoque infinito, do melhor milho do mundo, para ele e todo galinheiro, para o restante das suas vidas e das próximas gerações…”
Caso você concorde com este pensamento, possivelmente já não esteja mais se dando conta da diferença entre preço e valor. Ou, talvez, já tenha perdido esta noção há tempo.

Valor sem atributo é preço! Nada VALE!
Paz e bem!

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