Conta uma antiga fábula que um homem muito simples – um agricultor, caminhava pela sua propriedade para examinar a lavoura. Era uma manhã muito fria de um inverno que se mostrava muito rigoroso. Em meio aos arbustos, cobertos pela neve remanescente da noite anterior, ele se depara com uma serpente congelada pelo frio – quase que totalmente imóvel, mas ainda com vida.
Mesmo sabendo do perigo que ela oferecia, o homem foi tomado de profunda comoção. Recolheu a serpente com todo o cuidado e acomodou-a no bolso do seu casaco. Sua intenção era salvar-lhe a vida.
O que o agricultor não imaginava é que em tão pouco tempo a serpente estivesse novamente aquecida e, com isto, plena de suas forças e de seus instintos. Ao sentir-se estranha ao ambiente, a serpente colocou sua cabeça para fora do bolso e, com um bote preciso, cravou suas presas no braço daquele que lhe salvara a vida.
O pobre homem, ao sentir a picada, logo percebeu do que se tratava. Em sua consciência, entendeu a gravidade da situação. Sozinho e sem comunicação, recostou-se sobre o tronco de uma árvore.Sentiu no corpo os efeitos daquele fortíssimo frio do veneno que se espalhava. Foi então que deu-se conta da sua fragilidade e dos poucos minutos de vida lhe restavam.
Em seu último momento de consciência falou em voz alta: “Aprendi, com o meu trágico destino, que nunca deveria apiedar-me daquele que, por natureza, já nasceu mau…”.
Esta fábula, como tantas outras, traz uma questão moral. Porém, não quero ater-me à ela. Estes dois personagens também falam, metaforicamente, de situações vivenciadas dentro de cada ser. Dois lados que, invariavelmente, se apresentam nas situações cotidianas.
Psiquicamente, o agricultor e a serpente surgem como modelos que, por vezes, se manifestamde forma consciente ou mesmo inconsciente. Se revelam no próprio modo de pensar, em relação a si e ao mundo. Mostram tanto o poder destruidor da serpente quanto o da ingenuidade. Porém, a serpente traz o símbolo vivo do conhecimento. Ela sempre está lá, presente, para nos expulsar dos “paraísos” que criamos! Sejam eles quais forem! Assim,ela serviu como meio para que o agricultorse desse conta da sua ingenuidade mortal.
Para quem flerta com a maldade,ódio, vingança, violência, guerra ou extremismos, é bom lembrar: a crença ingênua é tão destruidora quanto o veneno da serpente. Assim como alerta Esopo: “Não há boa ação capaz de desfazer os efeitos já consumados de uma má ação.”
Paz e bem!

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