Algo de estranho na frase acima?
Se eu e você habitamos o mesmo universo, possivelmente perceberá que há, sim, um problema. Um Problemão! Destes mesmo: com “P” maiúsculo.
De gênero? Vamos pensar um pouco…

Cada vez que, em meu consultório, recebo um homem e ele, por qualquer razão, se veja frente a uma difícil questão emocional à qual não consiga segurar suas lágrimas (e isto – felizmente – não é uma generalização), entra em cena este dogma ao qual grande parte dos homens precisa dar conta: Eles limpam as poucas lágrimas e repetem a fórmula da maldição: “…, mas homem não chora. ”

Um mantra que, infinitamente repetido, assola não somente o homem, mas a sociedade como um todo.

Este duro pacto de “não sentir” cobra caro não apenas nos íntimos recantos da alma. Uma vez que somos parte e estamos conectados com “a alma do mundo”, o “lado de fora” da alma também sofre e paga seu preço.

Então, se você é daqueles que repete este “mantra”: (re)pense!
Se vocêapenas ouve e não faz absolutamente nada: (re)pense!
Em qualquer um destes casos, você colabora e se torna parte deste nefastopacto cultural.
Nossas dores nos humanizam. E se “os olhos têm a (nobre) missão de chorar os excessos da alma”, podemos ter, através deles, a essência que pode reconectar o homem à sua natureza humana. Esta que lhe é, habitualmente, roubada na pureza da infância.
“Homem não chora”. Mas pode! A natureza traz esta estranha forma de dar equilíbrio às coisas e, por fim, cada vez que um “homem não chora”, uma criança chora, uma mulher chora, a sociedade chora…Nesta perigosa represa dos sentimentos, cada lágrima não derramada se torna uma gota.

Voltando à questão inicial. Estamos tratando uma questão de gênero? Não!
Esta é uma questão humana!
Jamais daremos conta de resolver demandas mais complexas como guerras, injustiças, corrupção e tantas outras, se não formos capazes de lidar com a mais básica de todas. Esta que está na ponta do nosso nariz e fere a única porção do que nos resta de humanidade: a dignidade de poder sentir!

No início deste texto, mencionei sobre não estar tratando de generalizações. Há quem faça a diferença. Quando criança, na minha condição de menino, também não fui poupado da dureza e das consequências desta frase calamitosa. Nas vezes que me via sendo obrigado a engolir meu choro, fui “salvo” pelas raras pessoas que chegaram de mansinho ao meu lado e cochicharam: “não dá bola, homem chora, SIM…”

Paz e bem!

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