Querendo ou não, a morte está sempre logo ali: à espreita. Entendo que, entre ela e nós, há uma forte ligação.
Por isto, admiro quem reverencia os mortos. Quem respeita a biografia. O que foi vivido, pelo que se lutou, por tudo o que já se foi capaz de superar. Honrar o passado é dignificar o próprio futuro. A herança deixada pelos mortos fala sobre caminhos que podemos, ou que de forma alguma devemos trilhar. Conquistas e renúncias. Especialmente, estas.
A mitologia do Império Médio egípcio (2000, a.C.) falava de Anúbis, o deus dos mortos e moribundos. Anúbis é uma associação do deus grego Hermes. Ambos são condutores das almas para o além.
Mas quero voltar um pouco nesta história. Antes de serem conduzidas, as almas passavam por um teste. Simples, mas de extrema importância. Todo coração era retirado do corpo e colocado sobre o prato de uma balança. Do outro lado, como contrapeso, uma pena. Não uma pena qualquer. Tratava-se da Pena da Verdade, símbolo de Maat, a deusa egípcia da Justiça.
A antiga civilização mexicana dos Toltecas falava do quanto é preciso libertar-se da traição imposta pela atenção. Então, cuidado para não ser enganado pela sua! A Pena da Verdade não trata sobre verdades ou mentiras. Nem mesmo sobre ser justo ou injusto. Mas de que a justa liberdade habita na leveza. Somente um ser livre (de absolutamente tudo) pode ser transportado para o além vida. Ao que tiver peso maior ou igual ao da pena, só resta ser devorado por uma horrenda criatura.
Qual seu peso? O que você carrega? Quais suas raivas, remorsos, medos? Preconceitos, verdades, teorias? Do que você não abre mão? Quem é o seu amor?
Não apenas os egípcios sabiam que “leves chegamos, leves precisamos voltar”. A mitologia cristã conta de um jovem advertido por Jesus. Ele precisava se desfazer de tudo o que possuía, para poder entrar no Reino dos Céus. A mitologia suméria falava de Inanna. Para chegar ao submundo, a deusa precisava passar por sete portais. Em cada um, desfazer-se de um atributo, até não lhe restar nada.
O maior mal da humanidade reside na crença do ter. Frente à grandeza do universo, nada sabemos. Nada possuímos. E não há outro fim, senão aquele escrito na entrada de um famoso cemitério: “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”. Além de Si, não há espaço para mais nada! O tempo todo, menos é mais. Como adverte Fernando Pessoa:
“Assim façamos (…) um dia, (…) / Que há noite antes e após / O pouco que duramos”.
Difícil é compreendermos a leveza de tudo isto.
Paz e bem!

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