No sábado à tarde, após o último atendimento, fui para casa. Não queria me envolver em nenhuma tarefa que exigisse do físico ou da mente. Nada de leitura.Cortar grama ou revisar a lista de tarefas: nem pensar. Precisava descansar.
Impulsionado por uma alma desacostumada a parar, acabei pegando o carro e decidi visitar um amigo em uma cidade próxima.
No início do caminho, alcanço uma fila enorme de carros. Daquelas que, de imediato, se percebe que é melhor reservar um lugar e ficar por ali mesmo. Uma simples espiada para a frente e foi possível contar mais de uma dúzia de carros, todos seguindo lentamente, guiados por um caminhão bitrem.
Em um certo ponto da estrada, a velocidade diminuiu bastante. Conferi o velocímetro, que denunciava 15km/h. Diante de uma estrada sem acostamento, cheia de imperfeições, buracos, raros pontos para ultrapassagem e uma chuva recém iniciada, me restava “desacelerar”. Eu já havia entendido o “recado da vida” para reduzir a “velocidade”. Então, acabei diminuindo o volume do rádio e também desacelerei a mente.
Foi quando a caravana,vagarosamente, entrou em uma curva.Percebi duas meninas saírem correndo de dentro do pátio de uma casa. A cena chamou minha atenção.
Vestidos iguais, o mesmo laço no cabelo, sandálias iguais. Um tecido tão incomum, não poderia ser paranoia minha. Meu pensamento reascendeu: elas são iguais?
Correram com sorrisos largos. Saltitantes, seguravam uma pasta nas mãos. Entraram em um transporte escolar, cheio de outras crianças usando os mesmos vestidos, os mesmos enfeites no cabelo. Possivelmente, como destino, o mesmo lugar.
Naquela noite, tive um sonho. Lá estavam as meninas e seu coral a cantar em uma apresentação de Natal. Me incomodei com a uniformidade em palco. Houve um intervalo. Olhei para traz e vi uma senhora.Muito velha, pele enrugada e um corpo curvado pelos anos que o tempo lhe conferiam. Ela ajeitou seu xale preto e bordado sobre os ombros, como quem se recolhe. Cheguei a sentir o vento frio vindo da sua direção. Ela baixou a cabeça e disse em voz fraca: “Elas são diferentes”.
Não consegui mais dormir. A afirmação daquela misteriosa senhora reverberou.
Entre “os de lá” e “os de cá”, é preciso reconhecer mais do que simples diferenças. É preciso reparar o quanto de indiferença há no modo de olhar.
Meu “pedido de Natal” é por um país com menos (in)diferenças e mais pessoas que realmente façam a diferença. Porque, enquanto olharmos superficialmente, só o visível nos saltará aos olhos.
Paz e bem!

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