Faz tempo que me questiono sobre a particularidade de uma passagem bíblica. De forma alguma, trago uma análise teológica. Há nela, algo intimamente ligado ao psiquismo.
Então, disse Jesus: “Deixai vir a mim as crianças e não as impeçais…”(Mt 19,14).
O que é que aquele homem, aclamado como o filho de Deus, precisava mostrar para o povo que o seguia?Necessitava daquelas crianças para tornar visível exatamente o quê?
Penso no viés psíquico de tal afirmação. Sendo necessário “deixar vir sem impedir”, ele se referia a algo relacionado à imagem, à presença, ou ao comportamento?Tratava-se de algo pertencente à criança ou ao universo infantil? Era literal, ou seria uma característica que precisa ser vista, aprendida, internalizada?
O que as crianças teriam para ensinar aos adultos? É algo que esquecemos? Que não percebemos? Alguma coisa que, inevitavelmente, perdemos com o passar dos anos?
É comum que se associe criança à pureza, doçura, ternura, ingenuidade. Mas como dar conta desta associação quando elas são birrentas, mesquinhas, maldosas? Qual destas se aproximou de Jesus naquele dia?
Não é possível assegurar nada, mas a afirmação ainda ecoa: “O reino do céu é daqueles que a elas se assemelham”. Não trata de algo futuro. É algo presente naquele momento.
Seguidamente, faço uma brincadeira. Digo que o ser humano muito se assemelha à polenta. Caso você nunca tenha se arriscado na cozinha, eu explico: Com o cozimento, a mistura vai perdendo água. Logo, quanto mais cozida, mais dura e seca ela fica.
Tal qual o fogo à polenta, a vida faz “perder água”… Torna muitas pessoas menos maleáveis (repletos de certezas), rígidas (fisicamente e emocionalmente). Ressecadas, cascudas e até queimadas (pelas más experiências), incomestíveis (suas ações e palavras já não são capazes de nutrir). Secas e quebradiças (uma alma árida e inóspita a novos projetos e sonhos).
Envelhecer é caminho (sem volta) do qual Jesus parecia entender muito bem. Acolher aquelas crianças, não se tratava de um “voltar” literal no tempo, mas de não perder-se no tempo.
Até hoje, não alcançamos a abrangência desta parábola, o que estas crianças simbolizam e o que este céu contempla. No entanto, o “inferno” que se torna uma alma enrijecida é totalmente real e visível. Para dar conta de algumas “respostas”, ainda precisamos da criança, do seu universo, e deste símbolo vivo em nós.
Um feliz Dia das Crianças para todos que mantém viva sua criança interior; aos que não abandonaram seus sonhos e aos que ainda encontram motivos para tornarem-se, novamente, merecedores do céu (seja lá o que ele signifique para cada um).
Paz e bem!

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