O quanto temos de habilidade para ligar um ciclo a outro?
Na hora em que “a coisa aperta”é muito comum torcermos pelo final rápido. Há uma“natureza”que parece exigir lançar uma pá de cal sobre o que se encerra.
A brevidade anda meio que de braços dados com a insatisfação.
Começar outro, novo. Tudo do zero. Sem manchas.Roupa nova. Aquela folha de desenho branquinha, sem nenhum rabisco, sem marcas de borracha ou borrões.
De outra forma, basta o time estar ganhando de goleada para implorarmos que o tempo nunca se acabe. O último beijo, antes da despedida, sempre poderia ter alguns segundos a mais. O tempo, meus amigos, não é dado a afetos. Ele acaba.
Consumimos rápido demais, de forma abusivamente descontrolada. Exageramos em quase tudo. Até mesmo na afoiteza das nossas comemorações. Como se, no fundo, a alegria também fosse acabar. Ela acaba.
A mitologia grega conta sobre Cronos (o grande titã, que tudo devora). Não é de causar espanto que ele, justamente, represente o tempo. Cronos impede a vida. É o tempo no qual, fora dele, nada acontece. Um monstro egoísta, sedento por devorar a tudo e a todos. Ensimesmado, ignora qualquer conexão com o futuro.
Mas, felizmente, esta história não acaba aí. Ele é derrotado. Seu castigo é ver a liberdade do que havia devorado: seus seis filhos.
Héstia, a deusa da família, do calor do lar; Demeter, a soberana da agricultura; Hera, rainha das bodas e da maternidade; Hades, senhor do mundo inferior e dos mortos; Poseidon, deus dos mares; e Zeus, o grande responsável pela ordem e consciência. Eles são a base da sociedade que surgiria.
Cronos temia o futuro. Temia perder seu poder. Talvez, esta seja uma lição sobre a transitoriedade. O futuro requer transformação pessoal. Do contrário, há apenas a morte, mascarada de eternidade.
Quando Cronos é derrotado, precisa se deparar com o que tanto negou: sua falta de conexão, suas incertezas, sua deficiência de aceitação do diferente e do novo. Porém, já não há mais tempo. O gigante do tempo é devorado pelo seu próprio presente vazio e desconexo.
A única forma de são sucumbir ao tempo está na qualidade das conexões que mantemos.
Com o que nos conectamos? Estamos abertos às mudanças? O que temos necessidade de controlar?
Face à virada de ano, compartilho um pensamento do saudoso ator Mário Lago, que parece ter entendido de forma magnífica esta relação de conexão.
“Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo: nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra.”.
Paz e bem!

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