Elas já foram chamadas bruxas. Mais tarde, a sintomatologia atribuiu-lhes o termo “histeria”. No entanto, desde a mais “famosa” das Cassandras, elas seguem sendo rotuladas como loucas.
Cassandra foi uma personagem mitológica peculiar. Exímia profetisa, previu a Guerra de Troia e suas consequências catastróficas.
Uma de suas “visões” mais terríveis foi sobre o Cavalo de Tróia. Sem sucesso, ela roga ao rei Príamo para que o destrua. O rei não lhe dá credibilidade alguma e recolhe ao interior de suas muralhas o famigerado “presente de grego”.
Mas quais as razões de não se dar relevância às terríveis previsões?
Vamos ao mito. Cassandra, ainda criança, acompanhada de seu irmão gêmeo, vai ao templo de Apolo para brincar. Esgotados e frente à noite que caía, são abrigados lá. No dia seguinte, ao raiar do sol, a ama que os guardava dirige-se às crianças que ainda dormem. Ao encontrar serpentes lambendo as orelhas das crianças, fica aterrorizada. Apesar do susto, as cobras não lhes causaram mal algum. Ao contrário; seus ouvidos tornam-se tão sensíveis a ponto de ouvirem a “voz dos deuses”. Fato que torna Cassandra uma habilidosa vidente.
Enquanto cresce em idade e beleza, também se torna uma fiel servidora do templo. Sua dedicação é tamanha a ponto de o próprio Apolo treiná-la na arte da adivinhação.
Cassandra se torna tão admirável que Apolo se apaixona pela profetisa. Entretanto, ela se nega a entregar-se aos desejos do deus. Isso deixa-o tão furioso que lança sobre ela uma terrível maldição: “Ninguém, jamais, acreditará nas suas profecias”.
Não é preciso muito esforço para imaginar o destino de Cassandra. A perversidade da maldição leva-a à loucura.
Uma leitura psicológica da atualidade revela que este mito segue tão vivo quanto na Grécia Antiga. Um número incontável de “Cassandras” são levadas ao adoecimento.
As “Cassandras” atuais continuam sofrendo e, aos poucos, “enlouquecendo”. Elas têm o “dom” de reconhecer a tirania, o abuso, a traição. São habilidosamente intuitivas. Sua “loucura”se dá por acessarem “a verdade” pela via inconsciente. As “sensações puras”, não encontrando reconhecimento externo, recaem sobre o corpo produzindosofrimento.
Penam sob o jugo de um mundo injustamente polarizado. Denunciam a picaretagem política, as injustiças sociais, o crime ambiental, a desconexão amorosa, o abuso das relações. Ensinam que toda loucura denuncia uma verdade.
Então, fica a reflexão.Quem são as “Cassandras” da atualidade? Quem é capaz de ouvi-las?
Paz e bem!

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