A letra da canção é explicita:
“Faça calor ou faça frio
É sempre carnaval no Brasil”
Pode-se evitar a festa, mas não sua representação.
Para o universo psíquico não há “indiferença”. Da mesma maneira que não gostar do frio, ou ignorá-lo, não impedirá que o inverno aconteça. Mesmo que o Natal nada signifique para alguém, ele está acontecendo e influenciando os sentimentos e atitudes ao seu redor.
Podemos pensar nos retiros espirituais de carnaval. Mesmo sendo “espiritual”, é proporcionado,justamente, pelo período do carnaval. Quando repetimos que“somoso país do carnaval”, o fazemos de forma consciente ou, como em um ato falho, dando vazão ao que de mais profundo habita em nós? O que alimenta esta representação de um carnaval permanente?
Para “além” da festa em si, haveria um “algo em nós”? Há diversas fontes sobre a origem do carnaval. Porém, em quase todas, há uma questão central: a inversão. O plebeu vira rei, o rei vira escravo, o homem vira mulher.
Conta uma das versões que, em uma antiga festa babilônica, rei e prisioneiro trocavam de “vida”. Tal troca incluía até mesmo que o prisioneiro dormisse com a mulher do rei. Passados alguns dias, o prisioneiro era enforcado e empalado. Nas festas do deus Baco ou Dionísio,que eram embaladas pela embriaguez, os “prazeres da carne” eram vividos em toda sua intensidade.
A essência não mudou. A fantasia da inversão segue atuando sobre o humano.Na fantasia da avenida, o pobre vira rei, pode ser deus, ter superpoderes. O trabalhador cai na folia sem hora para “bater o ponto”. O malandro vira padre, a tímida vira depravada.
Carl Jung, dizia que frente às convenções e tradições, o indivíduo lança mão de uma máscara à qual ele chamou de persona. Esta é uma das belezas do carnaval. Manter viva a “fantasia” de cada um. E a fantasia do carnaval está para a alma o tanto que um vertedouro está para uma represa. Ao permitir um ponto de extravasamento, a estrutura não é comprometida por “sobrecarga”. O problema não está em “abrir as comportas”, mas, justamente, em fazer tanto esforço para que fiquem “fechadas”.
Não é preciso olhar para o carnaval com “bons olhos”, no entanto,entender que aquiloque dele se condenaé apenas fruto da parte que não o reconhece. Sombra de uma “luz” que nega a sua própria escuridão.
Voltando à letra da canção:
“O teu relógio quer acelerar
Quer apressar os meus passos
Não há pára-raio contra o que vem de baixo”
O carnaval vem “de baixo”: dos grandes porões no qual se reprime a natureza humana.
Através dele, ainda é possível entrar em contato com o que se tenta esconder na “máscara” da grande “represa” social.
E você, já escolheu a “máscara” que vai usar neste carnaval? Paz e Bem!

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