Quando se é criança, a ideia do poder absoluto é legítima. Sonhos e fantasias são fontes inesgotáveis nas quais se bebe da água dos Heróis. Tudo se torna possível. O completo poder.
Certa vez, pleno das minhas habilidades de criança-herói, tracei um plano. Era simples: desmontar minha bicicleta para fazer uma limpeza geral. Peças para cá, pedaços para lá. O volume de itens espalhados foi motivo de orgulho.
Com o trabalho concluído, era hora de iniciar a montagem.
Neste momento, meu heroísmo infantil foi posto à prova. Não havia um plano de remontagem. A duras penas, aprendi que remontar dava mais trabalho do que desmontar.
Nem todo ser humano é dotado de todas as faculdades necessárias para um dado momento ou situação. Se, muitas vezes, é difícil encontrar alguém que seja apto a reconstruir algo, imagine ainda possuir habilidade, competência e cuidado. Comum mesmo é a turma do “Passa a patrola, depois se dá um jeito”.
Voltando à bicicleta, havia nela algo de “sobrenatural”. A cada tentativa de montá-la, percebia algo sobrando. O que mais impressionava é que certas peças nem sempre faziam falta. Isto, até o dia no qual me esqueci de repor uma peça do freio. Aí, a história foi outra. Na primeira descida, lá estava eu, abraçado na roda de um caminhão. Por sorte, estacionado.
Quando algo é negligenciado, pode-se ter uma certeza: isto será descoberto da pior forma, na pior hora.
As experiências de vida se entrelaçam e se interligam. Hoje, de longe, reconheço situações nas quais soluções “fáceis” são empregadas para resolver problemas “complexos”. Nisto, posso reconhecer o que me cabe e o que foge da minha alçada. Eis aí uma das tantas importâncias do brincar na infância. O brincar ensina e amadurece.
Toda tarefa deve, primeiramente, ser confiada a quem de fato lhe compete. Logo, um lenhador não é o mais habilitado para transplantar um coração. Do mesmo modo, não cabe ao cirurgião, “cortar” o fio de uma bomba-relógio.
Contudo, há um verdadeiro bando de “solucionáticos” agindo em diversas áreas! Competências técnicas são, com absurda frequência, substituídas por soluções puramente “emocionais”. Emoções são complexas, também necessitam de profissionais habilitados.
Se a uma criança não compete o labor de um adulto, muito menos a missão de reerguer um país pode passar pelas mãos de “adultos” movidos pelo heroísmo infantil.
Nestas horas, como diz um velho ditado, “muito ajuda quem pouco atrapalha”. A vida real é uma roda de caminhão, esperando, por aí…
Paz e Bem!

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