James Hillman diz que “As cores apresentam a realidade fenomenal do mundo, o mundo como ele se mostra…”. Recentemente escrevi, sobre alguns significados do amarelo, relacionando-o a aspectos do psiquismo humano. Hoje, trago algumas considerações sobre o preto.
Para a ciência, a “não cor”. Para a cultura, uma infinidade de atributos associadas.

Há anos, uma batalha comercial é travada, para produzir o preto mais preto do mundo. Um produto no mercado já consegue absorver uma surpreendente quantidade de 99,96% da luz visível. Ou seja, praticamente toda a luz projetada sobre ele “desaparece”.

Mas destaco que são os aspectos culturais, acima dos científicos, que estão vivos no psiquismo e atuando sobre ele.

Hillman afirma que o preto, no mundo grego e em algumas línguas africanas antigas, já era associado à morte, ao misterioso mundo das trevas, má sorte, feitiçaria e ocultismo.

Na alquimia toma o sentido de realização. Tal qual o carvão, que resulta do fogo sobre a madeira ou o escurecimento da prata pelo tempo. Daí um conceito interessante: o pretejar nega a luz. Então, temos um símbolo muito forte de contrariedade ao padrão vigente. Mas sua principal qualidade ainda é absorver luz. O preto da depressão, traz o “descolorimento” da vida.

Até aqui, sem novidades. Contudo, o perigo real do preto está no fascínio que ele produz. É quando ele toma – para seu observador – um brilho admirável. De tão brilhante, passa a refletir a própria imagem de quem o observa. E por mais que um objeto possa refletir outras imagens, ele não será aquilo que reflete; ainda carregará seu próprio simbolismo.

Então, para a psicologia alquímica, há um preto mais preto que o preto. Ou seja: o fundamentalismo. Sobre o psiquismo, o fundamentalismo impõe a literalidade. A ideia toma o lugar do símbolo; o encantamento/brilho toma o lugar da cor. É quando, por exemplo, se mata em nome de Deus.

Culturalmente (dadas raras exceções), a ideia de Deus se aproxima de criação, amor, vida. Até se relaciona à morte, mas opõe-se ao matar. Aquele que foi seduzido pelo preto mais preto que o preto (ideia/candidato/time), sente-se no direito de matar, acusar, sentir-se o dono da razão, pois o brilho do seu preto “absorve” o brilho de “outras cores”; para que o seu conceito prevaleça, ele mata (contra a vontade do próprio Deus: “Não matarás”).

Ninguém convence uma pessoa tomada por este torpor. A ela, resta colher os frutos da sua própria falta de consciência.
Lembro que isto tudo é uma metáfora do comportamento humano! Eis a sedução do preto: cada um se ilude com aquilo que vê nele refletido: a sua própria escuridão.
Paz e bem.

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