O 20 de setembro se aproxima e, com ele, o avivamento dos elementos característicos da cultura gaúcha. Mais gente pilchada nas ruas, comida campeira em destaque no cardápio e predisposição musical inclinando para a gaita. Chamo sua atenção para as letras das músicas gauchescas mais conhecidas; aquelas que cantamos mecanicamente, sem dar a devida atenção ao que afirmam. Pois bem; observando o que diz em “Céu, Sol, Sul, Terra e Cor”, escrita pelo cantor Leonardo – o gaúcho, não o sertanejo – notamos sua legítima admiração por esses pagos. Contudo, será que nosso estado ainda está à altura dessa música? Vamos aos versos:
“Eu quero andar nas coxilhas / Sentindo as flechilhas das ervas do chão”. Isso ainda existe. “Ter os pés roseteados de campo”. Báh, principalmente nos campos de várzea. “Ficar mais trigueiro com o sol de verão”. Lamento reconhecer que o buraco na camada de ozônio deixou o bronzeamento mais rápido. “Fazer versos cantando as belezas / Dessa natureza sem par”. Olha; a natureza, onde ainda é preservada, continua bela. Mas não vou mentir; depois que a gauchada descobriu Balneário Camboriú, nunca mais olhou Tramandaí com os mesmos olhos. “E mostrar para quem quiser ver / Um lugar pra viver sem chorar”. Está cada vez mais difícil encontrar lugares onde poderíamos mostrar a alguém de fora como livres de tristeza. Não é de hoje que uma nuvem de atraso vem nublando nosso dia a dia. A pujança do Rio Grande do Sul não é a mesma de outrora, e por isso os problemas que vêm em decorrência da decadência fazem com que, se não choro, pelo menos um desânimo tome conta das pessoas.
“É o meu Rio Grande do Sul / Céu, sol, sul, terra e cor! / Onde tudo que se planta, cresce / e o que mais floresce é o amor”. Nem tudo germina bem por aqui. O solo pode ainda ser muito bom, mas no campo das idéias e do empreendedorismo, muita semente morre por estar em terreno estéril. Quando consegue vencer a aridez da terra e se erguer, uma maçaroca de ervas daninhas trata de sufocar aquele broto de futuro. Citando um único exemplo, o nosso ICMS é altíssimo comparado aos outros estados.
“Eu quero me banhar nas fontes / E olhar horizontes com Deus”. Só cuida a poluição. “E sentir que as cantigas nativas / Continuam vivas para os filhos meus”. Quanto a isso, pode ficar tranquilo. Paixão Côrtes e seus amigos fizeram um trabalho sólido visando à manutenção da cultura rio-grandense. Os filhos dos seus filhos ainda farão a dança do pezinho. “Ver os campos florindo / e crianças sorrindo felizes a cantar”. Não sei se um dia nosso Estado já foi assim. Ainda temos muito a fazer para chegar nessa realidade. E se conseguirmos essa façanha, então poderemos mostrar para quem quiser ver, um lugar pra viver sem chorar…

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